‘Você quer consertar o mundo?’

Não daria pelo menos para tentar impedir mortes evitáveis nesta carnificina que impera em ruas e rodovias brasileiras?

cinto de seguranca sendo afivelado com mundo
Cinto ainda é o equipamento de segurança mais importante (Foto: Shutterstock)
Por Boris Feldman
16 de outubro de 2021 07:33

Passageiros nos aviões, pressionados pelas comissárias, jamais viajam sem afivelar cintos de segurança, E muitos questionam o porquê desta exigência, pois seu (limitado) raciocínio só imagina o avião despencando com reduzidas chances de sobrevivência.

Sequer consideram outras hipóteses como turbulências que podem, conforme a intensidade, jogar sua cabeça contra o teto. Ou protegê-los no impacto de um pouso forçado.

Passageiros de ônibus não afivelam cintos. Apesar de a mesma lei que os exige nos automóveis valer também para ônibus rodoviários. Mas eles não levam comissária a bordo nem o passageiro tem consciência da importância de seu uso. Assista ao vídeo:

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País da ‘lei que não pega’

Em viagens de longa distância, algumas empresas instruem seus motoristas para, antes de assumir o volante, dirigirem-se aos passageiros com uma breve mensagem que inclui a recomendação para afivelarem os cintos. E relatam que alguns seguem a sugestão no momento, mas logo depois o desafivelam. Quase ninguém respeita a legislação, mais uma das dezenas de um país com “lei que não pega”.

Há alguns anos, meu filho entrou num ônibus (lotado) da Cometa em BH para uma viagem noturna até o Rio de Janeiro. Quando o motorista entrou, ele teve a “ousadia” de reclamar que o cinto de sua poltrona não funcionava e que ele se recusava a viajar naquelas condições. O motorista, perplexo diante desta “descabida” exigência, sugeriu inicialmente que ele registrasse uma queixa no livro de reclamações…

Tentou depois – inutilmente – reparar o dispositivo de segurança. Solicitou então – imaginem – que algum dos passageiros revoltados com o imbroglio e aflitos para que se iniciasse a viagem, trocasse de lugar com ele.

Muito a contragosto, ele acabou levando o ônibus – com os passageiros – para a garagem da Cometa antes de pegar a estrada. Sob vaias da grande maioria e palmas de uma pequena minoria.

Nem o mecânico foi capaz de resolver o problema e a única alternativa foi substituir o ônibus. Meu filho não teve dúvidas, pelo andar da carruagem, de que a do cinto defeituoso voltou para a estação rodoviária onde cumpriria outro roteiro.

Ao final da viagem, um dos passageiros irritados com o atraso passa por ele e pergunta sem esperar pela resposta: “Você quer consertar o mundo?”

Fiscalização nas rodovias?

foto acidente onibus gontijo corpo de bombeiro divulgacao
Acidente aconteceu em Leopoldina. Motivo: aquaplanagem (Foto: Corpo de Bombeiros | Divulgação)

No início deste mês, ônibus da Viação Gontijo ligando uma cidade do estado de São Paulo a uma da Bahia, escorregou na pista molhada e caiu numa ribanceira de 150 metros. Dos 52 passageiros, mais de 40 se feriram e quatro morreram.

O motorista justificou “por uma poça de água na pista pois chovia muito, o que fez o ônibus deslizar e sair da estrada”.

Ou seja, foi a conhecida (não por ele) aquaplanagem, quando os pneus perdem o contato com o asfalto e se torna impossível qualquer manobra ao volante. Mas, este fenômeno só ocorre em velocidade incompatível com as condições da estrada, revelando imprudência ao volante. Verificou-se também que o ônibus tinha 8 notificações de infrações, cinco por excesso de velocidade.

Quanto à fiscalização, a Viação Gontijo, consultada, diz que registrou um ligeiro acréscimo na utilização dos cintos recentemente, mas que não se recorda de nenhuma multa por este motivo nos últimos oito anos.

Acidente, só com os outros…

Entretanto, estivessem os cintos afivelados, como num avião, quantas vidas teriam sido salvas e quantos feridos escapado ilesos?

O Brasil ainda é o país em que, infelizmente, estão todos certos de que acidente só acontece com os outros. Essa é a nossa cultura e nada se faz para colocá-la nos eixos.

Jamais vi uma campanha do governo incentivando o uso dos cintos nos ônibus. Nem no banco traseiro dos automóveis, onde ainda é reduzido o número de passageiros que o afivelam.

Em cidades do interior onde a fiscalização é mais precária, o cinto de segurança não é utilizado sequer nos bancos dianteiros. E ainda têm os ignorantes que alegam não utilizá-lo porque a lei exige os airbags, “suficientes para proteger motorista e passageiro”.

Eu também “não quero consertar o mundo”, mas apelar para que a consciência do cidadão e a ação educativa do governo tentem pelo menos evitar mortes evitáveis nesta carnificina que ainda impera em ruas e rodovias brasileiras.

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9 Comentários
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Leandro 21 de outubro de 2021

Boris, imagino que o problema no cinto do ônibus onde seu filho viajaria pode ter ocorrido até mesmo por falta de uso. São como portas de carros que “colam por falta de uso”. Imagino que quando surgiu um passageiro disposto a utilizar já estava emperrado… Bom que seu filho foi firme, do contrário teriam coagido a seguir viagem sem criar caso.

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Polvo 18 de outubro de 2021

Brasileiro não liga pra segurança. Não usa cinto de segurança no ônibus, geralmente também não usa quando senta no banco de trás de um carro, muitos motociclistas não usam capacete, ou usam da forma errada e, pra piorar, muita gente dirige embriagada. As escolas deveriam dedicar algumas horas da sua grade curricular para ensinar educação no trânsito para as crianças e, quem sabe, as gerações futuras não tenham mais consciência de que atitudes simples possam preservar muitas vidas.

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Rodrigo MARTINIANO 17 de outubro de 2021

‘CONSERTAR O MUNDO’, a tal altura dos acontecimentos, eu creio ser impossível.
Não à toa, a NASA enviou recentemente (hoje 17.10.2021) uma sonda em direção a certos asteroides PERIGOSOS DE COLIDIR CONOSCO, COM A TERRA.
Entre “só pesquisa” e “REAL POSSIBILIDADE”, sendo que há real possibilidade, a pergunta é:
POR QUAL MOTIVO ENVIAR A SONDA – – de fato enviada – – ?
FOI PARA SONDAR E PREVER, OU PARA TENTAR DESVIAR?
Seja lá como for, a garota GRETA THUNDBERG me desculpe muitíssimo pelo MUNDO RUIM que a lego.
Aqui no BRASIL, trabalhei conforme pude na esperança de alguma coisa mais gratificante, o PROALCOOL, por exemplo.
ACONTECE QUE A POLÍTICA ARRASA QUALQUER BOA INTENÇÃO.
R.
. . . . .

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Raoni 16 de outubro de 2021

A impressão é que só tem maluco sem educação nas ruas e estradas. Ah, não é impressão, é uma constatação.

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alecs 16 de outubro de 2021

o povo pensa se morrer , que se dane ! Mas num ponhu u sintu di siguranssa …tá bão pro cê ?

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Andre Rocha 16 de outubro de 2021

Não tive uma cultura herdada do meu pai e/ou avós/tios para que todos estejam com os cintos afivelados. Ainda assim eu só dou a partida no meu carango quando TODOS estiverem acomodados e com cintos afivelados. Sou pai e sempre prezei pela vida de minhas filhas, e não só delas, mas a de qualquer pessoa que esteja em meu automóvel. Seja para ir na padaria da esquina a 300m daqui: cinto de segurança afivelado! Parece besteira e excesso de zelo, mas eu sei o que estou fazendo e os cuidados que estou tomando ao guiar mas, será que quem está atrás do volante de outro automóvel está fazendo o mesmo que eu? Não foi nem 1 nem 2 vezes que, ao adentrar a esquina de casa em bairro residencial e cheio de lombadas, ou seja, nem dá pra andar muito, fui surpreendido por outro motorista trafegando em sentido contrário e fazendo a mesma curva sentando a mamona. Se há uma colisão as chances de eu e os ocupantes nos machucarmos mais seriamente é grande, caso estejamos sem cinto. Tenho uma amiga que perdeu o pai, além da irresponsabilidade, mas por estar sem o cinto. Ele bebeu para comemorar o aniversário, e na volta pra casa 9de cara cheia e em alta velocidade), perdeu a direção e colidiu contra um poste. O veiculo, tamanha a força do impacto, o arremessou pra fora, fazendo com que ele batesse a cabeça no meio fio e tivesse traumatismo craniado, vindo a óbito. Mesmo com toda a irresponsabilidade, se estivesse de cinto muito provavelmente ainda estaria vivo.

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Rodolfo 16 de outubro de 2021

Tudo isso acontece porque a lei é branda neste país com relação a isso. Aposto que se a multa fosse pesada para a empresa devido a falha de funcionamento do cinto de segurança não iria acontecer isso.
E também devia dar prisão de uns 10 anos para motorista imprudente caso fosse constatada o abuso da velocidade. Em caso de falha mecânica se for costatado a negligêcia na manutenção preventiva em especial dos freios, suspensão e pneus o dono da empresa de ônibus devia é ser preso por uns 20 anos.

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Fernando 16 de outubro de 2021

Está muito exaltado, gafanhoto. Nesse país nem quem mata com dolo fica esse tempo preso.

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Rodolfo 16 de outubro de 2021

Se alguém da sua família infelizmente morrer de acidente de ônibus quem sabe você não ache que sou tolo.

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