Pneu de carro em moto: entenda os perigos da prática

Apesar dos testes publicados na internet, especialista alerta que a prática é insegura; risco de desgaste irregular e negativa de seguro também são contras

Por AutoPapo 23/11/20 às 17h06
pneu de carro instalado em moto foto continental
Muitas são as diferenças das estruturas dos pneus de carros e de motos (Foto: Continental | Divulgação)

Das inúmeras polêmicas envolvendo pneus, esta é uma das mais quentes. Há, no Youtube, diversos depoimentos de fervorosos defensores da adoção de pneu de carro de passeio aplicados na roda traseira de motos do tipo custom, que possuem garfos dianteiros mais longos, inclinados para frente e bancos mais baixos.

Várias combinações foram testadas e até mesmo “recomendadas”: Honda Shadow 600 montada com 175/65R14, Kasinski Mirage 250 e Yamaha Virago 250 com 165R15 ou 5.60/15 (utilizados originalmente no VW Fusca), Yamaha Drag Star 650 e Suzuki Boulevard C1500 com 185/65R15, 195/55R15 e até 205/50R15.

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Os argumentos dos que defendem tal alteração são sempre os mesmos: o custo de um pneu de passeio versus o custo de pneu traseiro de uma custom original chega a ser até três vezes menor, o seu uso acaba por proporcionar maior conforto ao motorista e maior durabilidade do produto. Além disso, a estabilidade e o comportamento da moto não são afetados de forma significativa e os pilotos se adaptam rapidamente às eventuais alterações.

Rafael Astolfi, gerente de assistência técnica da Continental, fabricante de pneus de tecnologia alemã, explica que inicialmente é preciso atentar para as diferenças de construção de pneus de motocicletas e de carros, que não são poucas:

Pneus de motos são geralmente diagonais, com coroa (porção que compreende a banda de rodagem) arredondada e normalmente possuem mais de um composto de borracha em sua banda, o que permite níveis diferentes de aderência em retas, curvas e curvas fechadas. Suas laterais são bastante rígidas, sendo bem difícil dobrá-las.

Já pneus de passeio em sua grande maioria são radiais, possuem coroas planas e são normalmente construídos com apenas um composto de borracha em sua banda de rodagem. Suas laterais já são bastante maleáveis quando comparados aos pneus de duas rodas.

Segundo o especialista, embora haja uma boa razão por trás de cada uma dessas características, o fato de as motocicletas custom terem um estilo de condução diferenciado – não inclinando tanto na hora de efetuar curvas e mantendo-se bastante “em pé” – acaba viabilizando o uso de pneus de passeio.

O fato é que usar pneu de carro em motos, além de não recomendado, passa por cima de algumas questões técnicas importantes:

  • o casamento entre a largura da seção do pneu e a largura do aro de montagem – o que evita deformações e desgastes irregulares, além de garantir bom contato com o solo;
  • o uso de câmaras em pneus tubeless – que podem danificar o pneu e gerar excesso de calor pelo atrito;
  • o excesso de pressão de inflação para montagem – que pode romper núcleos de talões; e
  • a falta de orientação sobre uma pressão de uso adequada – que pode reduzir a vida útil dos pneus e afetar o consumo da motocicleta.

“Muitos os adeptos dessa prática perigosa acreditam que a recomendação de um modelo específico de pneu é apenas de uma questão comercial, o que não é verdade. Mas se ainda for necessário fornecer mais algum argumento, há um risco real de uma seguradora recusar a cobertura de um sinistro caso a motocicleta tenha uma alteração deste tipo”, conclui Astolfi.

2 Comentários
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Walter Alves de Almeida 24 de novembro de 2020

O Felipec do Road Garage foi do Ushuaia ao Alasca com pneu de carro na Harley Davidson, sem nenhum incidente. Só posso crer que o pneu é adequado para motos custom que rodam sem muita inclinação.

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Adriano Ferreira 27 de novembro de 2020

Ia citar o mesmo caso concreto, Walter. Ia marcar o Filipec perguntando: você conta ou nós contamos? Mas você já falou por todos.
Ótima oportunidade para as fabricantes de pneus para custom repensarem os preços praticados. Abcs.

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