Yamaha MT-07: em avaliação, moto vai em busca do ‘queijo perdido’

Yamaha MT-07 desbrava estradas de asfalto e de terra para descobrir os sabores tradicionais de Minas e, de quebra, conhecer a nascente do Velho Chico

Por Teo Mascarenhas 27/04/21 às 14h00
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Yamaha MT-07 na região da Serra da Canastra, em Minas Gerais (Téo Mascarenhas | AutoPapo)

Durante muito tempo, o queijo Canastra teve dificuldade de ser comercializado fora de Minas, porque é feito a partir do leite cru. Por outro lado, essa é uma das características que conferem sabor e textura únicos no planeta, somados ao chamado “terroir” da região da Serra da Canastra (MG), com a altitude, clima adequado, qualidade da água, tipo de capim, tipo do gado e, principalmente, seu trato.

São dezenas de microprodutores no entorno do Parque Nacional da Serra da Canastra, onde também fica a nascente do Rio São Francisco, produzindo de forma artesanal e semi-artesanal, com receitas de família. O resultado é um extraordinário queijo, que não abandonou as características regionais, mas ganhou o reconhecimento mundial apor meio das sofisticadas sensações de paladar, que renderam premiações internacionais.

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Yamaha MT-07

Fomos conhecer uma parte desta história rodando com a Yamaha MT-07 entre Belo Horizonte (MG) e São Roque de Minas (MG), uma das cidades portais do parque nacional, que abriga vários produtores, com degustação e receitas culinárias de se ajoelhar, com os tipos meia-cura e curado (com mais tempo de maturação) repousados em prateleiras de madeira, ou com fungos endêmicos, que só existem na região e que viraram patrimônio cultural imaterial brasileiro.

A sede da cidade dista cerca de 15 km da nascente histórica do “Velho Chico”, subindo a serra por estrada de terra. Tudo isso com a Yamaha MT-07, que tem preço sugerido de R$ 40.490 e faz parte da família MT (“Master of Torque”, ou simplesmente (Mestre do Torque, em uma tradução livre), com motor de dois cilindros paralelos, 689 cm³, batizado de CP2 (Crossplane 2).

É um arranjo na movimentação dos pistões com intervalo de ignição de 270 graus, que confere uma pegada tipo soco da boca do estômago nas retomadas de velocidade. Essa tecnologia é empregada nas competições e também na superesportiva R-1.

Nos cerca de 350 km de estrada que separam Belo Horizonte de São Roque de Minas, essa característica ficou bem evidente. Em uma rodovia pedagiada, mas quase toda em pista simples, as ultrapassagens eram facilitadas com o vigor do motor. Bastava enrolar o cabo, quase sempre sem trocar de marcha, e depois só conferir pelo espelho.

A MT-07, lançada no Brasil em 2015, cerca de um ano depois de ser apresentada mundialmente, foi a primeira da série Master of Torque a adotar a arquitetura de dois cilindros em linha, proporcionando também dimensões compactas que resultam em mais agilidade e maneabilidade.

Muito torque

O motor entrega potência de 74,8 cv a 9.000 rpm e um torque de 6,9 kgfm a 6.500 rpm. Exatamente um arco de rotações visando o torque, em uma velocidade de cruzeiro pra lá de suficiente: se utilizada com ligeira redução de rotações, essa característica amplifica a autonomia com sensível baixa no consumo, já que o tanque comporta 14 litros.

A segunda geração, que está em vigor no Brasil a partir de 2019, entretanto, foi lançada lá e cá praticamente ao mesmo tempo. As atualizações estão em um novo banco em dois níveis (805 mm de altura), com desenho mais largo e ergonômico na junção com o tanque, e na suspensão dianteira convencional não-invertida, com 130 mm de curso, que ficou mais rígida e mais esportiva.

A suspensão traseira, do tipo mono, com 130 mm de curso, também ganhou possibilidade de ajuste no retorno e 9 regulagens na pré-carga já existentes: o sistema fica ancorado em balança assimétrica. Do lado direito há uma curva tipo “banana”, como nas motos de pista, e o lado esquerdo é convencional.

Pelada, mas cômoda

A posição de pilotagem, composta pelos três pontos que formam um triângulo imaginário entre guidão, banco (menos amigável para o passageiro) e pedaleiras, proporciona uma leve inclinação do tronco para frente, sem perder o conforto do relaxamento ergonômico, porém, sem recursos aerodinâmicos como carenagens e para-brisa, o que é próprio do estilo naked.

Porém, mesmo “pelado”, o visual da Yamaha MT-07 é bastante ousado e foi modernizado, com novos traços do tanque de combustível e defletores de ar. O farol também foi redesenhado, incorporando aletas inferiores, com novo para-lama dianteiro e abas do radiador, além do interessante “atrevimento” estilístico das rodas em liga leve pintadas em cores vivas (nas versões cinza e azul), como nos modelos de competições, e ponteira de escape de saída curta e baixa.

O painel, com visor inteiramente digital, tem formato horizontal, fica bem destacado e traz iluminação em LED. Além das informações usuais, como velocímetro, hodômetro e nível do combustível, há conta-giros em barra progressiva, que indica a faixa de rotações para melhor aproveitamento do motor, número da marcha engatada e computador de bordo.

De Yamaha MT-07 na Serra da Canastra

O caminho de Belo Horizonte à região da Serra da Canastra passa pelo verdadeiro “Mar de Minas”.  Esse mar é de água doce, composto por várias barragens, como o gigantesco lago de Furnas, que são alimentadas, em grande parte, pelo complexo das Serras do Canastra, que funciona como uma espécie de caixa dágua.

Para proteger a área, foi criado em 1972 o Parque Nacional da Serra da Canastra, que tem cerca de 200 mil hectares (dos quais, 90 mil ha. são legalizados) e abriga espécies como o Lobo Guará (estrela da nova nota de R$ 200), o Tamanduá Bandeira e o Pato Mergulhão, que só existe ali e exige águas perfeitamente puras para viver. O nome Canastra é uma referência à forma da serra, como se fosse um móvel do tipo baú, com laterais escarpadas e topo mais plano.

São exatamente essas “paredes” que criam o desafio: a “escalada” serra acima se dá por uma castigada estrada de terra, os quase 15 km até a nascente do Rio São Francisco, já dentro do parque. Dali, o Velho Chico percorre 2.800 km, passando por 500 municípios em cinco estados, Minas, Bahia, Pernambuco, até sua foz nas divisas entre Sergipe a Alagoas.

Também dentro do parque, são quase 35 km até a parte alta da cachoeira Casca D’anta: é possível visitar as cerca de 50 quedas d’água espalhadas pela região. No trajeto, claro, existem autênticas queijarias artesanais, com métodos passados de geração para geração.

Ela vai bem na terra

A MT-07 não é uma legítima fora de estrada (a Yamaha está homologando a Ténéré 700, com mesmo motor da MT-07), já que tem rodas com aros de 17 polegadas, pneus para asfalto e guidão mais baixo e estreito, entre outros itens.

Porém, as dimensões extremamente compactas, com entre eixos de 1.400 mm (como comparação, o modelo Yamaha Factor 125 cm3, tem entre eixos de 1.325 mm), o baixo peso de apenas 183 kg a seco, um quadro rígido em tubos de aço do tipo diamante, no quale o musculoso motor faz parte da estrutura, além da extrema maneabilidade e facilidade de pilotagem permitem estripulias bem além do asfalto.

Essas características fazem da MT-07 a mais equilibrada e versátil da família Master of Torque, que tem ainda a MT-03 (com motor der dois cilindros e 321 cm3), a MT-09 (com motor de três cilindros e 847 cm3) e sua versão Sport Touring Tracer 900 GT. Por outro lado, esse mesmo pacote também permite rodar no trânsito do dia-a-dia com muita agilidade, facilitado pelas vigorosas retomadas do propulsor.

Outro efeito colateral da baixa largura, volumes e dimensões reduzidas são os freios. Dotado de ABS, o sistema conta com dois discos ventilados do tipo wave, com 282 mm de diâmetro e pinças de duplo pistão na dianteira, e um disco de 245 mm de diâmetro na roda traseira. O conjunto ganha eficiência e um padrão de super dimensionamento, proporcionando confiança.

Para conhecer outra atração do parque, porém, não é necessário “testar” os freios, já que o ABS não pode ser desligado. De São Roque de Minas até a Casca D’anta, maior queda do “São Chico”, são 27 km por asfalto até a cidade de Vargem Bonita e, de lá, mais 23 km de terra, já na parte baixa, pelo vale do São Francisco, passando por São José do Barreiro, distrito de São Roque de Minas, até a portaria 4 do Parque Nacional.

Espetáculo da natureza, a queda de 186 metros simboliza a transição da parte alta da Canastra, onde nasce o rio São Francisco, para a parte baixa, fora da proteção do parque, seguindo em frente para cumprir sua missão, ignorando toda sorte de maus tratos pelo caminho até “bater no meio do mar”. É o “segundo” mar de Minas.

Teo Mascarenhas

Especialista na cobertura do mercado de motocicletas e competições com mais de 30 anos de experiência.

Teo Mascarenhas
2 Comentários
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Luiz Ricardo Juvenal 28 de abril de 2021

Aventura, conhecimento e lazer, tudo isto em cima de uma moto, ou melhor numa MT é tudo de bom sem contar com o mix das palavras muito bem ditas, parabéns pela edição, me apaixonei ainda mais pela 07 e aprimorei meus conhecimentos.

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Conconco 27 de abril de 2021

A melhor moto do mundo e de todos os tempos é a Bizz recomendo e assino embaixo 67 km na cidade e 98 km na estrada.

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