Como o etanol passou da quase morte para uma promessa mundial

Seis notícias recentes mostram que o álcool pode se tornar a tecnologia de transição para a eletrificação no Brasil e demais mercados emergentes

Por Zeca Chaves 31/07/21 às 15h07
toyota yaris cross amarelo
Yaris Cross: o modelo deve ser a base do híbrido flex brasileiro da Toyota (Foto: Toyota | Divulgação)

Se você dissesse em 1997 que dentro de duas décadas quase todos os veículos vendidos no Brasil seriam equipados com um motor que queimasse álcool, qualquer um que conhecesse o mercado automotivo daria uma boa gargalhada e diria que você não entende nada de carro. Nada mais natural, pois na época esse tipo de motorização representava só 0,06% do mercado.

Tudo indicava que esse combustível estava destinado a desaparecer, até que veio a salvação em 2003, na forma de uma inovação técnica da Volkswagen: um automóvel que podia rodar com álcool, gasolina ou qualquer proporção dos dois, chamado Gol Total Flex. A ideia deu tão certo que a motorização flexível representa hoje 92% das vendas.

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Apesar de ser considerado um orgulho nacional, a tecnologia flex tinha tudo para ser uma mera excentricidade brasileira, uma jabuticaba, como se fala das coisas que só existem por aqui. Seria apenas um regionalismo curioso, restrito a um mercado bem específico, assim como o sistema imperial de medidas, que hoje só é usado nos Estados Unidos, Libéria e Mianmar, enquanto o resto do mundo adota o sistema métrico.

Até que surgiu algo que pode mudar tudo, dando um futuro promissor ao etanol: os carros elétricos. Mas o que uma coisa tem a ver com outra? Eu explico.

Como Europa, EUA e China estão abraçando os veículos movidos a eletricidade, seja por força da legislação ou estratégia de governo, a indústria automotiva está sendo obrigada a mudar. Dentro de 10 anos, a maioria dessas fábricas vão produzir só veículos elétricos e serão forçadas a abrir mão dos automóveis a combustão.

E como fica o Brasil e outros países emergentes, já que seus consumidores não têm renda suficiente para comprar veículos tão caros, seus mercados não dispõem de benefícios atraentes para incentivar a eletrificação e suas infraestruturas não oferecem condições para criar uma rede robusta de eletropostos?

Híbrido flex e célula de combustível

Para alguns consultores e executivos do setor, o híbrido flex pode ser a resposta a essa pergunta, pois seria a tecnologia de transição perfeita para esses países.

Ele combina um motor elétrico, que ajuda a reduzir emissões e pode ser ligado na tomada nas versões plug-in, a um motor a combustão, que contorna a escassez de eletropostos e ainda dá uma sobrevida ao parque industrial existente nesses países enquanto o carro elétrico não se torna dominante. Completando essa receita há o etanol, que consegue neutralizar quase todas suas emissões, quando se considera o ciclo completo.

Um dos maiores defensores dessa solução, o presidente da Volkswagen América do Sul, Pablo Di Si, resumiu muito bem a situação para o portal Automotive Business:

Sempre que se apresentam estratégias globais da companhia, só ouvimos falar de Europa, China e Estados Unidos. Como ficam então as outras regiões como Brasil ou Índia, onde não há condições nem incentivos para eletrificar a frota tão rapidamente? Nós temos essa alternativa: o etanol de cana é o combustível do futuro, com redução de emissões de CO2 até maior do que um elétrico na Europa quando medimos o ciclo completo do combustível, desde a produção até o escapamento. Isso não é mais uma jabuticaba.”

Pablo Di Si não está sozinho nessa empreitada. Muito pelo contrário: nos últimos dois meses, seis notícias mostraram que o mundo pode estar se movimentando para tornar o álcool um personagem relevante no cenário global.

A primeira iniciativa veio em meados de junho, quando a Nissan anunciou que iniciaria o desenvolvimento de um modelo comercialmente viável da sua célula de combustível a etanol.

  • Boris Feldman fala desse projeto da Nissan:

O projeto é brasileiro, mas tem a supervisão do Japão, pois a matriz tem interesse em levar esse conceito a outros mercados. A ideia é, a partir do álcool, extrair o hidrogênio que, por meio de uma reação química, vai produzir a energia que movimenta um motor elétrico.

transito na india
A Índia decidiu adotar motores flex para reduzir os níveis de poluição e sua dependência do petróleo (Foto: Pixabay)

Duas semanas depois, foi a vez da BMW Brasil, que divulgou estar trabalhando em um motor a álcool que servirá como gerador para aumentar a autonomia do seu automóvel elétrico mais barato, o i3.

Nesse mesmo dia, ganhou as manchetes a notícia de que a Índia vai permitir a produção de automóveis flex e a venda de etanol em postos de combustível – até então só se adicionava o álcool à gasolina, a fim de reduzir as emissões dos motores já existentes e reduzir sua dependência do petróleo.

A informação fica mais interessante quando lembramos que o país é o sexto maior produtor do mundo, com 3,4 milhões de veículos em 2020, mas chega a 26 milhões de unidades quando se incluem motos e triciclos.

Centro mundial VW para biocombustíveis

Apenas duas semanas depois, o grupo Volkswagen comunicou ao mundo que o Brasil seria um centro global de pesquisa para motores flex e biocombustíveis, para exportar a tecnologia a outros países emergentes, que ainda estão distantes da eletrificação.

Também estão nos planos o desenvolvimento de híbridos flex e células de combustível para produzir hidrogênio a partir do etanol. Não por coincidência, a unidade da VW em São Bernardo do Campo (SP) recebeu em julho a visita do embaixador indiano no Brasil já de olho nessa tecnologia.

Não deu nem uma semana e o CEO da Toyota para a América Latina, Masahiro Inoue, confirmou que a montadora terá um híbrido compacto flex no Brasil, para fazer companhia aos híbridos maiores Corolla e Corolla Cross, este um SUV que tem sido um sucesso de exportação nos mercados sul-americanos.

E no meio disso tudo ainda há a notícia do site Autos Segredos de que o Polo Automotivo Fiat, em Betim (MG), deve começar a produzir entre 2024 e 2025 motores elétricos e híbridos flex, que vão equipar diversos modelos do grupo Stellantis, que reúne ainda Jeep, Peugeot e Citroën.

Diante disso tudo eu pergunto: é tudo uma grande coincidência ou o etanol está deixando de ser uma jabuticaba brasileira para ganhar o mundo, nem que seja pela porta dos fundos da eletrificação?

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21 Comentários
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Raulino machado 8 de agosto de 2021

Soja milho e para abastecer o nosso corpo ,
Sol e vento e para abastecer todos os sistema de transporte.

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Isael de Lima 5 de agosto de 2021

Boris:

O motor Elko a óleo vegetal não seria uma ótima opção para nós?

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Sergio M Monteiro 4 de agosto de 2021

Alguém já se perguntou o quanto de energia elétrica deverá ser produzida para atender à nova demanda se as promessas de fabricação de veículos eletricos forem cumpridas?
O Brasil tem uma capacidade instalada de 170 mil megawatt, lembrando que não é impossível produzir 100% da capacidade por fatores diversos tais como falta de ventos, dias nublados, estiagem, entre outros.
São lacrados 2 milhões de automóveis novos ao ano, ou a necessidade de 4.200 megawatt hora a mais de geração de energia ou o aumento de capacidade de geração de no mínimo 6.000 megawatt por ano para atender apenas a esta nova demanda se cairmos na onda verde dos paises europeus.
Precisaríamos do equivalente a 9 novas turbinas de Itaipu por ano para atender à nova demanda.
CNCORDO INTEGRALMENTE COM O ARTIGO E POSICIONAMENTO DA VW E NISSAN.

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Ed.j.silva 2 de agosto de 2021

Como diz o ditado. BR país do futuro. Coisas tão vindo aí, além do etanol, nióbio,grafeno, já é o maior no agronegócio!!……

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Andre Cavalcante 11 de agosto de 2021

O problema é que escuto essa de o Brasil ser o país do futuro há 40 anos. Eu quero que ele seja é o país do presente. Se a gente perder o bonde do Etanol servindo em sistemas SOFC (células a combustível de etanol direto), esquece… mais 40 anos…

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Rodrigo MARTINIANO 2 de agosto de 2021

Senhoras & Senhores,
POR GENTILEZA, EU INSISTO NESTE ASSUNTO:
LEMBREM-SE, DURANTE O REGIME MILITAR BRASILEIRO, NÓS TIVEMOS AO NOSSO ALCANCE UMA BOA PARCELA DA SOLUÇÃO PARA DESPOLUIR A NATUREZA: O PROALCOOL.
REFIRO-ME AO O PROALCOOL COMPLETO, DA FORMA COMO ORIGINALMENTE CONCEBIDO, INCLUSIVE COM A MINHA MODESTA PARTICIPAÇÃO.
Cordialmente,
Rodrigo MARTINIANO.

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Cláudio A S Lima 5 de agosto de 2021

Ainda acho que o álcool é realmente nosso futuro. Não precisamos de carros elétricos.
Como bem citou outro leitor, não há, em se substituindo a matriz para elétrica, como suprir a demanda. Espero que o senhor consiga fazer valer sua opinião à técnicos e autoridades para que não aceitem a imposição da indústria sem devido a estudos

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Andre Cavalcante 11 de agosto de 2021

Modelos à combustão já são passado! não importa o combustível. Pelo simples fato de que um motor a combustão interna tem, no máximo teórico, uma eficiência energética em torno de 40% (isso significa que 60% é calor que é jogado no ambiente, afora o problema da poluição localizada nas nossas cidades). Na prática um motor flex nosso não tem chega a 35% de eficiência. Um motor elétrico tem eficiência teórica de 100% com o uso de supercondutores, por hora ficção científica, mas na prática, a eficiência mínima é de 80% (os motores gigantes, estacionários; os menores, de alto torque, ideais para carros, tem eficiência de 90 a 95%, ou seja apenas 5% a 10% é calor dispersado por uma ventoinha). O custo com a manutenção de uma carro com motor a combustão chega a ser 10x maior que o custo de um elétrico. O problema que temos nos elétricos hoje é a bateria! coisa que se resolveria com uma célula a combustível de etanol direta (única tecnologia possível de ser desenvolvida aqui) com meros 40% de eficiência (já passou de 25%), o que já colocaria a eficiência energética desta célula igual à dos carros de hoje. Se perdermos esse bonde das células à etanol direto, já era… vamos continuar sendo um paizinho de segunda… Num futuro de 50 anos à frente não teremos mais motores a combustão interna e o mercado de veículos será todo de autônomos. Resta saber como o Brasil vai se posicionar à respeito (já estamos perdendo o bonde…). Ah! sabe mais o que vai acabar, de forma muito legal, com os carros elétricos autônomos? uma outra coisa: a indústria da multa!

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Ivan 1 de agosto de 2021

Desculpe não sou jornalista pois verei meus erros de português. Pois bem 1° que o Brasil só um pois emergente porque os políticos seguraram essa condição e não que deixar seu povo ter educação e dinheiro pois assim eles controlam tudo certo e 2° essa história do etanol é mais um jogo dos empresários ricos da indústria suco alcoleiro com os políticos pra que o álcool não fique a ver navios. Mas no fim da corda o povo vai sofre ou pagar muito, mas muito caro devido a ganância dos envolvido nessa farça. Toda via já está né. Pois tudo no Brasil é motivo pra desvio de verbas públicas.

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Antônio Braz 1 de agosto de 2021

Bom dia, como fazem com minério.
Devem vender as matérias primas e importar o etanol.
Não vamos assustar se grandes navios levarem cana, milho e etc.

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Alessandro Ribeiro 4 de agosto de 2021

Infelizmente terei que concordar com o Antônio, TD o que é bom no Brasil vira exportação, ficamos com os produtos de segunda e terceira e pagamos o preço de primeira. Brasil um país de ” tds”.

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SaileSaille 1 de agosto de 2021

Como o Brasileiro foi enganado quando começou o carro a álcool governo garantiu que seria 50% do preço da gasolina hoje a diferença é mínima ..com gasta 40% a mais pra fazer a mesma quilometragem.. Saímos livrados quem está lucrando somente os Usineiros.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva 31 de julho de 2021

A matéria apresenta inúmeros erros sob o ponto de vista econômico e tecnológico. Primeiro, é sempre infinitamente mais fácil adotar novas tecnologias em países emergentes do que em outros de infra-estrutura consolidada. É só ver que, na África, os celulares assumiram a ponta nas comunicações muito antes de isso acontecer nos Estados Unidos. Da mesma forma, a tecnologia bancária brasileira esteve – e ainda está – mito mais à frente que a americana. Em segundo lugar, a tecnologia que permitiu a existência de carros flex é americana, pois a composição do combustível varia de estado para estado, obrigando os sistemas de injeção a detectar os componentes para autoajuste ao longo das viagens. Em terceiro lugar, os carros usarem membranas para extrair o hidrogênio do combustível e tranformá-lo em água + eletricidade é algo que o Homem tenta desde antes de 1834 (187 anos atrás) e, até hoje, não se resolveu o problema de espaço. Para terminar, se essa pesquisa ganha força não é porque o Brasil é emergente, mas porque ele é enorme e a eletrificação de todo o território é inviável. É por isso que defendo, em todas asinhas matérias, a troca de baterias nos postos, como a China pretende com a MIO, de cujo funcionamento encontram-se inúmeros vídeos no YouTube.

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Cláudio A S Lima 5 de agosto de 2021

Caríssimo, a meio se tornou um fracasso comercial na China.

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ptharso castro 31 de julho de 2021

Basta colocar um gerador elétrico movido à etanol em cada posto de combustíveis para abastecer os veículos com baterias eliminando a ideia de célula combustível que exige um tanque de etanol no carro. Pensem brasileiros que estamos prontos para elétrificar o setor automotivo gastando pouco.

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Dr. Mundico 31 de julho de 2021

Excelente notícia, se tudo correr bem ,em pouco tempo teremos etanol mais caro do que gasolina.

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Francisco Bandeira 31 de julho de 2021

Bem provável…

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Clarence Sincler 31 de julho de 2021

Lembrar sempre que se referir a Etanol proveniente da cana de açucar é o Alcool combustível foi Inventado e impulsionado Pelo Sr.GURGEL que empreendedor da Época 1970 +ou- teve que Fazer e Adaptar um Veiculo com nome dele para provar que alcool dava certo…Favor Pesquisar a Fundo a Matéria na Regiao de Rio Claro-SP…e Publicar..Sem mais…

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Ricardo Lucas Silva 31 de julho de 2021

Do jeito que o brasileiro é, mestre em DESTRUIR o próprio país, vai começar e exportar o etanol e recomprar ainda mais caro.

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SaileSaille 1 de agosto de 2021

O Brasileiro não os Governantes pois parece que políticos só pensam nele e nos amigos e o Brasileiro que tanto trabalha só leva ferro. Em tudo o preço da gasolina ,o álcool com pouquíssima diferença e a promeça do preço era bem outra 50% mais barato que a gasolina

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Julio Nascimento 2 de agosto de 2021

Vai fazer melhor,exportar a cana e importar o etanol,cobrar vários impostos e vender pra os oreba comprar

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