Paixonite! Quando a compra do carro é irracional, nem o racional justifica

Carro de duas portas já foi absoluta preferência do brasileiro, única no mundo... Mas o mercado nacional tem outras peculiaridades

mulher abraca carro
Paixão por SUVs: mais beberrões, pneus mais caros e sem benefício real (Foto: Shutterstock)
Por Boris Feldman
08 de janeiro de 2022 08:03

Os jovens de hoje não devem se lembrar de uma preferência do brasileiro (única no mundo) na década de 80: carros com duas portas. Não há explicação lógica e imagina-se que a moda foi resultado de – à época – a maioria dos motoristas ter aprendido a dirigir num Fusca. Ou por aparentar esportividade.

Fábricas tiveram de investir para alterar o projeto original de modelos que vinham da matriz e que não tinha sido concebidos para duas portas. Caso do VW Santana ou Doginho Polara.

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A irracionalidade era tamanha que madame se contorcionava para se assentar no banco traseiro de Opala cupê… com motorista.

Mas o mercado tem sempre uma explicação lógica para justificar o ilógico. No caso da aversão às quatro portas, “cupê é mais seguro para as crianças atrás” (besteira: sempre existiu uma trava de segurança para evitar acidentes), ou “vão me confundir com taxista”, “dá menos trabalho para trancar”, “menos barulhento” e, finalmente, o inquestionável “valor de revenda”.

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VW Santana duas portas: feito para o Brasil (Foto: Volkswagen | Divulgação)

Diesel, mesmo sem retorno

O litro do diesel é mais barato na bomba que gasolina ou etanol pois paga menos impostos. Antiga decisão do governo federal para reduzir custos dos transportes coletivo (ônibus) e de carga (caminhões). Simultaneamente, proibiu também o motor diesel nos automóveis, para não se beneficiarem com o preço reduzido do combustível.

Mas a produção do motor diesel custa muito mais, pois tem taxa de compressão mais elevada, exigindo maior resistência dos componentes, sempre tiveram bomba injetora, ao invés do carburador, e turbina.

Além de o litro do diesel ser mais barato, o motor é mais eficiente e tem menor consumo. Então, seu km rodado custa muito menos que o do motor a gasolina.

Existe portanto a falsa idéia de que picape diesel é melhor negócio. Mas não é bem assim, pois seu custo inicial é tão mais elevado que só mesmo rodando mais de 5 ou 6 mil km por mês para valer a pena o investimento inicial.

Como a média mensal do motorista brasileiro é pouco superior a 1.000 km mensais, não tem retorno do que paga a mais pelo picape diesel. Mas, como sempre, vem o argumento imbatível: “o valor de revenda!”.

Engate-bola

engate bola traseira carro

A rigor, é para rebocar carretas, lanchas, etc. Mas, de repente, sem mais nem porquê, o brasileiro resolveu colocá-lo na traseira para “proteger” o carro no caso de impacto traseiro. As lojas deram força à idéia e se venderam centenas de milhares deste excremento no Brasil.

Começa que o engate nada protege. Pelo contrário, anula o efeito “amortecedor” do parachoque traseiro e transmite toda a energia do impacto para o monobloco (longarinas), em geral deformando-o. Algumas fábricas chegam a proibir especificamente sua utilização.

Além disso, engate-bola já rasgou muita canela de pedestre que passa atrás do carro. Danificou também muita placa e para=choque do carro estacionado atrás.

O engate correto é o que fica embutido no parachoque traseiro e nem aparece quando não está em uso.

“Quebra&Mata”

fiat palio adventure vermelha frente praia
Acessório já foi item de série em carros com apelo aventureiro (Foto: Fiat | Divulgação)

O quebra-mato é uma verdadeira “traquibanda” colocada à frente do carro composta de canos de aço formando um quadrado. A utilização primária do quebra-mato é no campo, para empurrar árvores na estrada. Ou outros carros enguiçados ou atolados.

Inexplicavelmente, o quebra-mato virou mania no Brasil, chegou a vir como equipamento standard e era chique adaptá-lo na frente de jipes, SUVs e picapes que só rodavam no trânsito urbano. Para “proteger” a frente do carro.

Mas era, na verdade, o tiro de misericórdia quando o veículo atropelava um pedestre. No caso de crianças, pegava exatamente na cabeça.

Recebeu o pertinente apelido de “Quebra&Mata”

Pinduricalhos

Foram muitos também os acessórios oferecidos pelas concessionárias. Tapetinho e calhas nas janelas encabeçam a lista das bugigangas empurradas goela abaixo dos motoristas.

SUV

A compra de um utilitário esportivo é decisão puramente emocional, só pelo modismo. As mulheres alegam se sentir mais seguras. Os homens explicam que as rodas maiores vencem melhor a buraqueira. Não é verdade, a maioria deles vem equipada com pneu de perfil baixo.

Quase ninguém que o adquire sabe explicar o porquê. Não tem fazenda nem sítio. Jamais usa a tração integral nos raros SUVs equipados com esta transmissão. Alegam ser de utilidade para carregar a família, mas seu porta-malas geralmente é menor que o de um sedã ou perua. São mais difíceis de estacionar. Seus pneus custam o dobro. O consumo é maior, pois são mais pesados e menos aerodinâmicos.

Uma paixonite tão “braba” que já liquidou o mercado de peruas e caminha para destruir também o de hatches e sedãs.

Mas chique hoje é ter SUV e apartamento com “Espaço Gourmet”. No caso particular dos homens, sua altura, imponência e aspecto de potência substituem suas falhas orgânicas e posturais.

Explico com mais detalhes o que eu acho dos SUVs; confira!

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6 Comentários
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Polvo 10 de janeiro de 2022

Espero que essa onde SUV passe, pois como já disseram, esses veículos não passam de hatches anabolizados. Sobre os carros de 2 portas, realmente ninguém comprava até os anos 80, pois havia aquele medo de as crianças abrirem a porta e os vidros atrás. Eu era criança nos anos 80 e meu pai não comprava carros 4 portas por causa disso.

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Antonio Pereira 8 de janeiro de 2022

Qual o problema que algumas pessoas tem em aceitar que cada um gasta seu dinheiro onde, como, quando e com o que bem entender?
Sei que é difícil para a cognição e discernimento de certas pessoas limitadas o entendimento de que as realidades e necessidades são diferentes a depender do nível sócio economio, ou seja, o que e fútil para você e gênero de primeira necessidade para outro e o que é luxo para alguns é lixo de extremo mal gosto para outros.

Passar bem.

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Santiago 13 de janeiro de 2022

Sim, cada um gasta o seu dinheiro como quiser.
O problema, porém, é quando o mercado fica cartelizado por produtos superfaturados que só interessam à uma parte dos consumidores. Enquanto que a maioria dos consumidores são deixados sem opções, uma vez que os produtos mais acessíveis, mesmo sendo lucrativos, são propositalmente inflacionados e até mesmo extintos. E isso não é lei de mercado. Isso é fraude!

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Santiago 8 de janeiro de 2022

A atual paixonite por SUVs é tanta, e tão desmedida, que os “apaixonados” dispõem-se a pagar os tubos por hatches anabolizados, e levianamente vendidos como “SUVs”.
Resultado: Ao lavar a égua em lucros fáceis e estratosféricos, as montadoras estão descontinuando ou inflacionando os demais modelos (que eram mais realistas e mais acessíveis), e desprezando a grande maioria dos consumidores. Um afrontoso desrespeito ao público.

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strady varius 8 de janeiro de 2022

Por favor, o correto é penduricalhos e não pinduricalhos.
Sempre tive uma dúvida. Se eu estiver errado e bater na traseira de um carro com engate-bola e danificar as longarinas do outro carro, terei que pagar?

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Rodolfo 8 de janeiro de 2022

Mesmo a pessoa tendo um SUV se deve ter em mente que não se pode abandonar a vigilância do que acontece no trânsito. Pois um caminhão pode ultrapassar o sinal vermelho ou não conseguir freiar em uma rodovia.

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