[Vídeo] Boris dá uma volta no primeiro carro a álcool, o Fiat 147

Boris Feldman deu uma volta na primeira unidade do veículo, conservada pela italiana em estado quase totalmente original

capa carro alcool 147 fiat portal
Por AutoPapo
08 de julho de 2019 18:30

Em 5 de julho de 1979, chegava às ruas brasileiras o primeiro carro a álcool de produção em série do mundo: o Fiar 147. Apelidado de “Cachacinha” por causa do odor característico exalado pelo escapamento, ele simbolizou um marco importante para a engenharia automotiva brasileira. Com o etanol, surgia a independência do petróleo e as baixas emissões de poluentes.

Para celebrar o aniversário de quatro décadas do modelo, a Fiat colocou para rodar, em sua fábrica de Betim (MG), o primeiro exemplar do modelo. A unidade histórica, que conta com placa de identificação do governo, roda com quase todos os componentes originais e sem restauração, segundo a fabricante.

Na época, o primeiro carro a álcool do mundo foi vendido para o Ministério da Fazenda, de Brasília. Hoje, ele voltou para a Fiat e faz parte do seu acervo de clássicos.

Boris Feldman dá uma volta na primeira unidade do Fiat 147 a etanol, o primeiro carro a álcool, conservada pela italiana em estado quase totalmente original
FCA - Fiat Chrysler Automobiles . Foto Leo Lara/Studio Cerri

“É emocionante ver esse carro de perto não só pela importância de ser realmente o primeiro Fiat 147 a etanol, mas também por estar funcionando perfeitamente com todos os elementos de época originais, como partida a frio e afogador, além de preservar a tampa vermelha do motor e a pintura original, com direito a alguns toques de batida de porta”, comenta o gerente de Engenharia Experimental da Fiat Chrysler Automóveis (FCA), Robson Cotta.

Na empresa desde o início da década de 1980, Cotta tem muitos motivos para se lembrar do Cachacinha. “O primeiro veículo zero quilômetro que eu comprei foi um Fiat 147 a etanol, portanto, ver em 2019 esse exemplar do primeiro carro a álcool traz uma lembrança muito boa tanto do lado pessoal como do profissional, pelos desafios enfrentados para desenvolver e fazer os automóveis a álcool darem certo no país”, disse ele.

O desenvolvimento do primeiro carro a álcool

A história do Fiat 147 a etanol remonta a 1976, quando as pesquisas e desenvolvimento do motor movido ao derivado da cana de açúcar começaram – mesmo ano em que o 147 a gasolina foi lançado no Brasil, tornando-se o primeiro carro Fiat fabricado no país. “Vivíamos a era do Pró-Álcool, um programa nacional para combater a crise do petróleo”, lembra Cotta.

Boris Feldman dá uma volta na primeira unidade do Fiat 147 a etanol, o primeiro carro a álcool, conservada pela italiana em estado quase totalmente original

Ainda em 1976, em sua primeira participação no Salão do Automóvel de São Paulo, a Fiat expôs um protótipo do 147 a etanol com dezenas de milhares de quilômetros rodados. O ano seguinte foi dedicado ao aperfeiçoamento técnico do produto, além da produção de outras unidades do que seria o primeiro carro a álcool para testes.

Em 1978, a Fiat desenvolveu o motor 1.3 de 62 cv de potência e 11,5 kgfm de torque que, durante os testes, acabou se mostrando mais adequado para o uso do etanol que o propulsor a gasolina de 1.050 cm³, até então utilizado no modelo. No início daquele ano, três Fiat 147 a etanol foram entregues ao Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) para serem experimentados no policiamento da Ponte Rio-Niterói.

Em setembro de 1978, um Fiat 147 100% a etanol realizou o que viria a ser o teste definitivo para criação do primeiro motor brasileiro a etanol: uma viagem de 12 dias e 6.800 quilômetros de extensão pelo país, percorrendo uma média superior a 500 quilômetros diários, sendo três mil por estradas de terra, e variações climáticas de mais de 30 graus.

Sucesso nas revendas e na pista

Entre os diferenciais do novo motor, estava uma taxa de compressão bastante elevada, de 7,5:1 da versão a gasolina para 11,2:1. Além disso, a carburação passou a trabalhar com mistura ar-combustível bem mais rica (com maior percentual de combustível). Essa era a razão de seu maior consumo – 30% mais alto.

“O propulsor ficou com potência pouco maior que a do similar a gasolina, devido à necessidade de conter o consumo: 62 cv brutos contra 61. Por outro lado, a taxa de compressão mais alta favorecia o torque e, portanto, as retomadas e acelerações em baixa ou média rotação. Mas o número que realmente importava era o custo por quilômetro rodado, menos da metade da versão a gasolina, com os preços dos combustíveis na época”, explica o engenheiro da FCA, Robson Cotta.

Depois disso, o interesse do consumidor pelo primeiro carro a álcool foi confirmado pelos números de vendas. De 1979 a 1987, período em que foi comercializado no Brasil, foram vendidas 120.516 unidades.

Ao mesmo tempo, no universo do esporte automobilístico, um dos grandes feitos do primeiro carro a álcool foi conquistado por mulheres. Ele ocorreu no que foi considerado o primeiro grande rali internacional do país, o Rallye Internacional do Brasil, disputado em 1979.

Um Fiat 147 Rallye #73 foi comandado pela dupla feminina Anna Cambiaghi (italiana) e Dulce Nilda Doege (brasileira), e terminou em quarto lugar na classificação geral, sendo o carro brasileiro de melhor posicionamento na prova. A competição teve um percurso de 2.200 quilômetros. Elas faziam parte do Team Aseptogyl/Panthères Roses/Concessionárias Fiat.

Desafios do primeiro carro a álcool

O supervisor de Engenharia de Produto da FCA, Ronaldo Ávila, que na década de 1980 trabalhava no laboratório químico da montadora, acompanhou de perto os constantes aperfeiçoamentos do 147 a etanol. “Minha equipe analisava as peças dos motores. Era um desafio muito grande: no início havia oxidação. Para que viesse a funcionar com o etanol, o sistema de alimentação como um todo [tanque de combustível, bomba, tubulações, carburador, etc.] precisou ser mais robusto para suportar um combustível extremamente corrosivo”, conta ele.

Boris Feldman dá uma volta na primeira unidade do Fiat 147 a etanol, o primeiro carro a álcool, conservada pela italiana em estado quase totalmente original

Após muitos testes, a engenharia da Fiat encontrou uma solução para proteger as peças do motor: o uso de níquel químico. “Esse metal cria uma camada de proteção nos componentes, inibindo as ações do etanol”, explica Ávila. Outra providência foi a instalação de um conjunto de escapamento aluminizado.

Por ser o primeiro carro a álcool, o Fiat 147 foi também o primeiro a encarar algumas características do combustível, como o baixo poder calorífico em relação à gasolina. Na prática, isso significava a lendária maior dificuldade para dar a partida no motor em dias frios. “Para resolver esse problema, a engenharia instalou o reservatório de partida a frio. Um botão no painel do carro aciona uma bombinha igual a do lavador do para-brisa e ela injeta no coletor de admissão uma quantidade de gasolina suficiente para dar a partida principalmente em baixas temperaturas”, detalha Cotta.

O legado do Fiat 147 a etanol

“Na época do 147, o sistema de injeção de combustível era o carburador, que de início não tinha um tratamento tão eficaz para conter a corrosão do etanol. Passamos, claro, a adotar materiais que protegessem o componente, mas ao mesmo tempo trabalhamos para atingir um outro nível tecnológico, que passaria pelo carburador duplo até chegar à injeção eletrônica”, lembra o supervisor da área de engenharia da Fiat, Ronaldo Ávila.

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FCA - Fiat Chrysler Automobiles . Foto Leo Lara/Studio Cerri

A evolução do sistema de injeção melhorou a mistura de ar e combustível nos motores. Com isso, houve ganhos significativos de desempenho e, ao mesmo tempo, redução de consumo. O diretor de Assuntos Regulatórios e Compliance da FCA, João Irineu confirma a elevada importância do etanol para os futuros lançamentos da FCA.

“O etanol foi, é e sempre será importante para nós. É estratégico para a companhia e tem papel muito importante na redução do efeito estufa. Começamos há 40 anos com um sistema de carburador e hoje trabalhamos no desenvolvimento de sistema turbo, injeção direta e uma série de outras alternativas que serão incorporadas ao motor a etanol para melhorar o desempenho em relação ao motor a gasolina”, considera ele.

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Além disso, a Fiat está, atualmente, trabalhando no desenvolvimento de um novo motor movido exclusivamente a álcool. O projeto “E4”, nome dado na fábrica, será o primeiro motor construído para o etanol desde o início.

Mesmo na época do primeiro carro a álcool, os motores eram projetados para a gasolina e, depois, adaptados para o etanol.

A novidade equipará modelos da Fiat no futuro, mas ainda não se sabe quais serão. Confira a análise de Boris Feldman sobre um carro movido exclusivamente a etanol.

Fotos FCA | Divulgação

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1 Comentário
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alzira correa 11 de julho de 2019

Fui estagiária na FIAT em 1979… é emocionante ver este carro e sua história

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