Por que todos estão investindo em veículos a hidrogênio?

Diversas marcas passaram a apostar nessa tecnologia como alternativa aos elétricos – e há uma boa razão para isso

hyundai trailer drone
Movido a hidrogênio, o Trailer Drone da Hyundai leva carga sem precisar de motorista (Fotos: Divulgação)
Por Zeca Chaves
25 de outubro de 2021 18:04

Parece que 2021 tornou-se o ano em que as montadoras acordaram para o hidrogênio. Não que elas nunca tivessem investido nesse gás para mover seus veículos antes, mas chama atenção como tantas marcas anunciaram ao mesmo tempo suas apostas nessa tecnologia.

Muita gente acha que isso é tão futurista que parece até coisa dos Jetsons, porém é mais simples do que parece. Na prática, um carro a hidrogênio se comporta como um carro elétrico. Não emite gases poluentes, não faz barulho e é movido por um motor elétrico. A diferença está em como esse motor é alimentado.

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No automóvel elétrico tradicional, chamado pela indústria de BEV (battery electric vehicle ou veículo elétrico a bateria), a eletricidade fica estocada em um grande conjunto de baterias de lítio. No automóvel a hidrogênio, denominado FCEV (fuel cell electric vehicle ou veículo elétrico a célula de combustível), a energia é gerada no próprio carro.

Do escapamento, só sai água

Funciona assim: o FCEV tem um ou mais tanques de hidrogênio pressurizado, que é injetado na célula de combustível. Dentro dela, o gás se combina ao oxigênio presente no ar e, por meio de uma reação química, produz a tão desejada eletricidade. A única coisa que sai do escapamento é água ou vapor d’água. Também não precisa se preocupar com explosões, pois esses veículos são tão seguros quanto carros com tanque de gasolina e, se houver vazamento, o gás se dispersa na atmosfera.

Esse sistema oferece duas grandes vantagens sobre o carro elétrico. O abastecimento demora de 3 a 5 minutos, o mesmo tempo que leva para encher um tanque de combustível. Muito mais rápido do que esperar a recarga da bateria, que leva em média de 40 minutos a várias horas, dependendo do tipo de veículo e do carregador.

renault master com estacao de recarga
Renault Master vem com uma estação de produção de hidrogênio

Outro benefício é a autonomia real, que na média varia de 500 a 600 km, distante dos 300 a 400 km das baterias, além de não ser afetado pelas condições climáticas – temperaturas muito altas ou muito baixas podem reduzir a capacidade da bateria. Claro que o hidrogênio tem seus problemas, e o maior deles é a rede de abastecimento, quase inexistente.

Foi de olho nisso que a Renault apresentou na semana passada, por meio da sua joint venture Hyvia, uma van Master acompanhada de uma estação que produz o próprio hidrogênio a partir da eletrólise da água. Prevista para chegar às ruas da Europa no ano que vem, ela é apenas o primeiro de três modelos que usarão a mesma tecnologia.

Alguns meses antes, Peugeot, Citroën e Opel (todas marcas do grupo Stellantis) já haviam seguido pelo mesmo caminho ao prometer que vão colocar no mercado europeu até o fim deste ano suas versões de van a hidrogênio.

Ideal para transporte em longas distâncias

O curioso que é tanto Renault quanto Stellantis vão oferecer modelos que têm opção BEV e FCEV, sendo que a primeira versão vai se destinar ao uso urbano, devido à menor autonomia e maior quantidade de estações de recarga em regiões centrais, e a segunda será mais indicada ao transporte de cargas em longas distâncias.

É natural que os fabricantes estejam preferindo concentrar os lançamentos de modelos a hidrogênio em veículos comerciais, pois é mais fácil para empresas arcarem com os custos de uma estação de abastecimento ou ajudar a desenvolver uma rede de distribuição tão específica.

Isso não quer dizer, no entanto, que não haja espaço para os automóveis. A Hyundai lançou o Nexo em 2018 e a Toyota oferece desde 2014 o Mirai, que neste ano bateu o recorde de distância percorrida por um modelo desse tipo: ele rodou 1.359,9 km com uma única carga de 5,65 kg de hidrogênio.

bmw x5 movido hidrogenio
BWM lançará o X5 com a nova tecnologia de olho nos recursos do governo alemão

Ambas logo terão a companhia da BMW, que já está na fase de testes de rodagem com o X5 em versão FCEV, previsto para estar à venda na Europa até o fim de 2022.

Parte desse programa está sendo custeado pelo governo da Alemanha, que anunciou em maio que investirá 8 bilhões de euros para financiar projetos de larga escala que utilizem o hidrogênio como alternativa aos combustíveis fósseis – o hidrogênio geralmente é extraído da água por meio da eletrólise.

É de olho nesses recursos que a Audi está reunindo um grupo de 100 engenheiros para estudar a tecnologia de célula de combustível, embora a direção do Grupo Volkswagen, que é dono da Audi, já tenha afirmado que o hidrogênio não teria futuro na indústria automotiva.

Se essa tecnologia parece mais distante para o segmento de automóveis, que ao que tudo indica será dominado pelos BEVs, os analistas da indústria não têm dúvidas que os FCEVs crescerão muito entre os veículos comerciais, especialmente os pesados e extrapesados.

Futuro promissor entre os caminhões

Com Europa e EUA exigindo o fim dos motores a combustão a favor de uma mobilidade de emissão zero, os caminhões elétricos dificilmente terão um futuro promissor se tiverem que carregar para lá e para cá quantidades imensamente pesadas de bateria para dar conta não somente de transportar a carga, mas também de cruzar longas distâncias nas estradas.

É nesse cenário que o hidrogênio começa a fazer sentido. Bastariam alguns poucos postos de abastecimento ao longo das principais rotas rodoviárias para resolver o problema. Dependendo do itinerário e do número de tanques, seria suficiente uma ou duas bombas nos pontos de saída e chegada, já que um único local de abastecimento é suficiente para encher cerca de 12 veículos a hidrogênio em uma hora, contra apenas um ou dois veículos elétricos a bateria.

Só para ter ideia da quantidade monumental de baterias necessárias num caminhão elétrico, saiba que um automóvel como o Tesla Model 3 precisa de uma bateria de 480 kg para dar conta do recado, enquanto um Toyota Mirai carrega apenas 88 kg com seus tanques de hidrogênio cheios. Além disso, ao consumir o hidrogênio o veículo FCEV vai ficando mais leve, o que não ocorre com um BEV.

Assim, começa a fazer sentido fabricantes de caminhões como Volvo e Mercedes-Benz já estarem desenvolvendo células de combustível para seus veículos pesados. Mas nessa área a Hyundai é a que está mais adiantada. Ela já oferece na Europa o Xcient, um caminhão equipado com sete tanques que somam 31 kg de hidrogênio, que são capazes de transportar 18 toneladas por 400 km. E vai entrar em testes nos Estados Unidos uma versão que alcançará até 800 km.

Aviação e navegação também vão entrar nessa

A marca coreana está investindo pesado nessa área. Em setembro, ela revelou seu projeto Visão Hidrogênio 2040 e ainda apresentou três protótipos: um novo caminhão, um esportivo com 650 cv de potência e o que ela chama de Trailer Drone, um veículo autônomo que levará seu frete pelas rodovias sem precisar de motorista por distâncias de até 1.000 km e ainda descarregará sozinho a carga no ponto de chegada.

avioes da airbus
Até a Airbus planeja usar o hidrogênio nos seus próximos aviões

É justamente a capacidade de abastecer rápido e de se livrar de um enorme e pesado conjunto de baterias que deve abrir as portas do transporte aéreo e marítimo ao hidrogênio.

Forçada cada vez mais a reduzir os níveis de emissões, a Airbus já planeja lançar até 2035 três modelos de aeronave a hidrogênio. A tecnologia é perfeita para tornar a aviação mais sustentável, porque o hidrogênio oferece a maior concentração de energia por peso: tem três vezes mais energia que a mesma massa de combustível líquido e mais de cem vezes que as baterias de lítio.

A mesma lógica se aplica aos navios. Dá para imaginar o peso e o tamanho das baterias e quanto tempo levaria para carregá-las nos grandes cargueiros que têm tanques entre 9,5 milhões e 13,5 milhões de litros para alimentar seus motores a diesel?

Carro movido a água é possível? Boris Feldman responde!

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14 Comentários
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Daniel 29 de novembro de 2021

Bom, fiz meu gerador, nao consome bateria e meu carro passou de 9km pra 14km , estou muito satisfeito , nao na teoria e sim na pratica, deu muito trabalho pq nao e facil entender o sistemaas funiona msm, agora vcs acham que o governo e as estatais petroliferas querem esse tipo de avanco e imdependencoa do cidadao? Jamais…

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André Paiva Brasil 31 de outubro de 2021

Estão investindo pq tá dando dinheiro.

Carro a hidrogênio é inútil. Pq é necessário produzir o Hidrogênio. O que gasta mais energia do que produz em hidrogênio. É apenas uma jogada de marketing para tratar como se fosse verde. Quando não é.

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Joabe 30 de outubro de 2021

E preciso lembrar que o hidrogênio é um gás que compõe nossa atmosfera… respiramos hidrogênio… no futuro um veículo poderá captar hidrogênio diretamente da atmosfera e realizar a produção de energia elétrica, sem custo! Energia limpa… subproduto e vapor d’água.

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Francisco José Pereira Machado 29 de outubro de 2021

Boas isso é muito bonito mas é na teoria, depois entra o governo e come tudo com impostos como o costume, nos temos um governo que é o que se conhece, um bando de gente séria há há!!

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Lars Bjorkstrom 28 de outubro de 2021

A produçāo de Hidrogenio com energia eletrica é muito caro.
Tem que ser com calor sobrando nas usinas nukleares.

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Ueslei 28 de outubro de 2021

Excelente conteúdo nessa matéria. Parabéns pelas informações e aguardemos o posicionamento das montadoras de veículos leves, pois para veículos pesados faz muito sentido a utilização do hidrogênio.

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Mauro Jr 27 de outubro de 2021

Faltou dizer o custo do hidrogênio.

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Marcus Consiglio 26 de outubro de 2021

Qual o custo da eletrólise x km rodado num automóvel médio? Se comparado à gasolina, qual a diferença de custo do km rodado entre essas alternativas?

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Mendel Bernardes 26 de outubro de 2021

Só será viavel se o custo da síntese do Hidrogênio for compensador, coisa que ainda não aconteceu.

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Osvaldo 26 de outubro de 2021

Qual é a fonte de energia para se produzir o hidrogênio?

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IVAN VASCONCELLOS 25 de outubro de 2021

Parabéns pela matéria!
Visão excelente e realista para redução de emissões de efeito estufa. Muito diferente da grande maioria que fica repetindo a ilusão do automóvel a bateria que pode até não emitir gases danosos, mas causa tanto ou mais poluição para obtenção da energia elétrica e para a disposição das baterias ao fim da vida, que é curtíssima.
Alem disso, concordo totalmente com a tese e há muito venho apoiando-a, por ser muito mais prática e lúcida.

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Ulisses 28 de outubro de 2021

Mas para se obter o hidrogênio precisa-se da mesma eletricidade utilizada para carregar as baterias do carro elétrico, entende? Para ambas tecnologias serem ecológicas vão depender da matriz energética do pais. Se a matriz for hidroelétrica, serão limpas. Se for termoelétrica a diesel ou carvão, serão sujas.

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IVAN VASCONCELLOS 28 de outubro de 2021

Ulisses, e quem mais quiser, pode assistir a esse vídeo produzido pela TV Cultura. É público e disponível pra quem quiser assistir. Vale a pena!

https://www.youtube.com/watch?v=cxJv-6RIANQ

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Paulo Augusto Franke 25 de outubro de 2021

Excelente a matéria de ZC sobre o hidrogênio veicular. Um comentário sobre os 88 quilos de hidrogênio, do Toyota Mirai. Esse deve ser o peso dos tanques, vazios. O Mirai leva 6 quilos de H2 a bordo, e o sistema abastecido pesa aproximadamente 94 quilos.

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