Vemaguet 2020? E tem montadora que diz estar lançando novidade…

Ninguém imagina que muitas tecnologias exaltadas como 'modernas' já existiam na perua Vemaguet, lançada em 1956

Por Boris Feldman 05/12/20 às 07h00
dkw vemaguet
Linha de montagem da Vemaguet (Foto: Divulgação)

Quando a Hyundai anunciou agora, na Coreia, um câmbio manual do tipo no-clutch (manual sem pedal de embreagem), eu me lembrei de um carro brasileiro de 60 anos atrás…

Essa e outras novidades do automóvel moderno estavam presentes nos antigos DKW, fábrica alemã, uma das quatro argolas da Auto Union, que licenciou seu produtos para serem produzidos no Brasil pela Vemag entre 1956 e 1967.

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Aliás, o primeiro automóvel fabricado no Brasil foi um DKW, a perua Universal F-91, lançada em novembro de 1956 e chamada depois de Vemaguet. A minúscula Romi-Isetta perdeu o título pois, apesar de lançada dois meses antes, não foi enquadrada como automóvel pelo governo por ter apenas uma porta (dianteira) e só levar três pessoas.

Apesar do motor 2 tempos lubrificado por óleo misturado à gasolina (inconcebível nos dias de hoje pelo fumacê no escapamento), o DKW incorporava uma série de soluções mecânicas pioneiras e que voltaram dezenas de anos mais tarde sustentadas pela sofisticação eletrônica que tomou conta do mundo.

Três cilindros

Nos últimos anos, por exemplo, solução para tornar os veículos mais eficientes é o motor 1.0 tricilíndrico. Raros os modelos compactos fabricados hoje no Brasil que não apresentam esta tecnologia. Exatamente como os motores da linha DKW-Vemag: Cilindrada: 1 litro, em três cilindros.

Veja um DKW com motor de três cilindros endiabrado, o GT Malzoni

Saxomat

A transmissão no-clutch da Hyundai, ou seja, um câmbio manual com alavanca de marchas, mas sem o pedal da embreagem, era exatamente o sistema Saxomat do DKW.

E também no Mercedes Classe A produzido em Juiz de Fora, (e no “Hydrac” dos Mercedes “Ponton” da década de 50), no Fiat Palio (Citymatic) e Chevrolet Corsa (Autoclutch). Alias, na minha opinião, a melhor solução de automatização, pois mantem a alavanca, mas suprime o pedal de embreagem.

‘Dois em um’

Suprassumo da modernidade é o motor que tem arranque e alternador substituídos por um único componente, também chamado de “alternarranque”. Cópia da solução de um DKW ainda mais antigo que o nosso, da década de 30, com o mesmo “dois em um”.

Roda Livre

Outra novidade em alguns carros sofisticados é a embreagem eletrônica. Um sistema que percebe qual o ângulo de inclinação da ladeira e decide ser ou não vantajosa cair em ponto morto (banguela).

Pois não é que o danado do DKW tinha solução semelhante, a Roda Livre, idêntico ao sistema dos pedais da bicicleta: parou de tracionar, cai em ponto-morto.

dkw vemaguet 1960
Vemaguet: o primeiro automóvel nacional

Outras antiguidades modernizadas…

Além das soluções antecipadas pelo DKW, outras modernidades já existiam há décadas, todas aplicando soluções mecânicas e elétricas, abandonadas e substituídas pela eletrônica. Softwares no lugar de relés e sensores sujeitos a frequentes panes que acabaram por aposentar todas essas traquibandas.

Flex

Lançado no Brasil em 2003, já existia em 1908, ano de lançamento do Ford modelo T, que podia ser abastecido com álcool ou gasolina. Um dos comandos na coluna de direção (alavanca da esquerda no “bigode”) ajustava o ponto de ignição de acordo com o combustível.

Um botão no painel (conjugado com o afogador) regulava a proporção ar/combustível para acertar a relação estequiométrica.

Injeção direta

Apregoada como uma das mais modernas soluções para tornar o motor mais eficiente, a injeção direta foi solução da famosa Mercedes “Asa de Gaivota” de 1953.

Híbrido

Herr Ferdinand Porsche, quase 40 anos antes de projetar o Fusca, criou em 1900 um automóvel híbrido, o Semper Vivus. Tinha motor a combustão acionando geradores que forneciam corrente tanto para dois motores elétricos nos cubos das rodas, como também para carregar a bateria.

Hill-Holder

No final da década de 30, surgiu o sistema “freio de rampa” no carro norte-americano Studebaker. Ao parar numa subida, se o motorista apertasse simultaneamente os pedais de embreagem e freio, ele poderia tirar o pé do segundo que o carro permanecia imóvel.

Ao soltar a embreagem, um mecanismo liberava também o freio, evitando aqueles preocupantes metros que o automóvel retorna de ré. Sem nenhuma sofisticação eletrônica, mas exatamente como o atual sistema de assistência em rampa.

SOBRE
16 Comentários
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Afonso Bucco 14 de março de 2021

Duvida: O autolub consegue ou conseguiria lubrificar o motor 2T sem que haja gasolina sendo gasta?

Eu tenho outra hipótese de porquê o DKW tem sistema roda livre (ao menos, é outro motivo):
A lubrificação atrelada à gasolina como em todo 2-tempos. Quando o motor não empurra, mas é puxado, e a borboleta está fechada, menos gasolina (a princípio) é usada, isso pode significar instantes em que o motor trabalharia com lubrificação deficitária causando desgaste prematuro. Se, ao invés disso o carburador fosse do tipo que continuasse mandando muito combustível sem necessidade, isso resolveria a lubrificação mas elevaria o consumo. Se usasse um carburador mais moderno, como aqueles dos anos 80 que conseguem empobrecer a mistura quando possível o problema de lubrificação seria ainda pior. Solução da fábrica foi fazer o motor trabalhar na lenta quando a potência não era necessária. A lenta usa pouca gasolina (e pouco óleo), mas a rotação mais baixa também não exige muito óleo.

Eles poderiam dizer que a roda livre servia para garantir a lubrificação, mas desconfio que isso pegaria mal. É o mesmo que dizer: meu carro tem um inconveniente que os outros não tem. Ao invés disso eles preferiram simplesmente dizer: É para melhorar o consumo. Isso, além da eventual vantagem (vai do gosto) de se dirigir um carro mais “solto” quando numa pilotagem mais tranquila.

Acredito que a DKW só não teve problemas com a lei em relação à roda livre graças a possibilidade de engatar (desativar a roda livre) através de uma alavanca, coisa útil para descer uma serra com mais segurança. E na pista? os carros de corrida 2T não usavam roda livre, usavam? Fora isso, o piloto era obrigado a evitar reduções agressivas e confiar mais no freio em todas as curvas?

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Tadeu 12 de abril de 2021

Eu aprendi a dirigir em uma Vemaguet , uma 1966 do meu pai . Um carro sensacional , com seus 50hp de potência . A roda livre eu penso que existia somente para dar um rodar mais suave ao veículo pois , sem acelerar, o motor 2 tempos pipocava bastante quando estava sem aceleração, e a roda livre tirava este incoveniente.

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ichiel raiche 20 de dezembro de 2020

carro maravilhoso,fui enganado por um vendedor de carro que iria arrumar para exibição,nunca mais eu vi,. uma imensa tristeza nunca mais achei um

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Adriano Rodrigues de Oliveira 9 de dezembro de 2020

Boa tarde a todos
Um dkw vemaguete é uma rara peça do passado que muitos tem o prazer de ver rodando ainda nas ruas, meu avô que Deus o tenha me deixou um 1967 vou restaurar e logo estarei nas ruas de São José do Rio preto SP rodando… Parabens ao colunista que sabe o que está falando, uma dádiva e muito prazeroso, maravilha…

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Geraldo Ricieri 8 de dezembro de 2020

Com muito orgulho, mantenho com muito cuidado meu DKW BELCAR 1964 em ordem para visitar os encontro dos antigomobilistas da região do Vale do aço em MG.

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Wagner 8 de dezembro de 2020

Nada se cria, mas tudo se cópia.
Creio que na verdade todas as grandes ideias já surgiram e foram postas em prática.
Parabéns pelo artigo.

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Rodolfo 7 de dezembro de 2020

Pesquisem o Google o assunto: “China rejeita motores 3 cilindros”.
Lá esta “tecnologia” não agrada em nada. Eu prefiro motor 4 cilindros porque ele faz menos ruído e vibra menos.

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NELIO 6 de dezembro de 2020

Muito bom estão copiando os antigos eu queria ver um mecânico por no ponto o motor da vemaguet e espero que vcs falam sobre os Jk Fnm
Nélio

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Fulvio Moreira 6 de dezembro de 2020

Isso que é informação relevante e conhecimento. Coisa rara na era digital. Parabéns ao colunista.

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Nanael Soubaim 5 de dezembro de 2020

Eu, que fui passageiro dos DKW e Willys, olhos de soslaio dessa gente que enche a boca para falar das modernidades que dão pane e te deixam na estrada por causa de seus softwares, e naquela época eram resolvidas com ferramentas básicas.

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Assis 5 de dezembro de 2020

Boris, faltou mencionar que os DKW tinham 3 bobinas e três platinados, sem distribuidor; virabrequim desmontável e montado com rolamentos esféricos ao invés de bronzinas; sistema de lubrificação automática Lubrimat e uma suspensão confortável e muito estável, mesmo em estradas de terra. Além disso andavam mais que os VW da época com motores bem maiores. Os DKW eram uma grande ameaça para a VW que comprou a fábrica e a fechou apenas 4 meses depois, em dezembro de 1967. Nos anos 1970 meu pai teve várias peruas Vemaguete e gostava muito delas. Eu era garoto e pedia para ele comprar um Fissore, um sedã com design muito avançado e charmoso para a época, mas era bem mais caro e raro que a perua. Existiram também o Belcar e o utilitário Candango, uma raridade disputada por colecionadores.

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Tadeu 12 de abril de 2021

A suspensão era por feixe de molas, por isto era bem resistente . Na dianteira, era somente 1 feixe que passava pro trás do motor . Na traseira também 1 feixe embaixo dos banco .

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Jorge Nicolau 5 de dezembro de 2020

Não sou da mesma era que o Boris, mas nasci dentro de um DKW quando ele era novinho, presente de casamento de meus pais.

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Paulo Maciel 5 de dezembro de 2020

Mais informação e menos marquetagem. 🙂 É bom ler alguém que, simplesmente, sabe muito do que está escrevendo.
Grande abraço!!

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Santos SANTOS 6 de dezembro de 2020

É esqueceram de falar do saudoso Alfa Romeu TI 4 da década de 70
Também com tecnologias inusitada!

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Scala 2 de abril de 2021

Mas tinha suspensão de carroça. Derrubava as obturações dos dentes!

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