Harley-Davidson “muda sem mudar” na linha 2021

Centenária marca norte-americana está passando por ampla reorganização global, que inclui a rede e os modelos: no Brasil, isso também ocorre

Por Teo Mascarenhas 26/01/21 às 09h00
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Motos da gama CVO são as mais sofisticadas da marca (foto: Harley-Davidson | Divulgação)

Depois de um período conturbado, com a distribuição no Brasil representada por terceiros (Grupo Izzo), a Harley-Davidson assumiu oficialmente as operações no país em 2011. A marca norte-americana montou, inclusive, uma fábrica em Manaus (AM), além de expandir sua rede de concessionárias.

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O mercado brasileiro adquiriu importância estratégica para a Harley-Davidson, na mira do programa global New Roads, ou novos caminhos em tradução livre. Capitaneado pelo então presidente mundial Matthew Levatich, esse plano previa uma radical diversificação na linha, com modelos inéditos, como a streetfighter Bronx 975, as street 500 e 750, a elétrica LiveWire e a big trail Pan America 1250.

O objetivo da empresa é atrair um público mais jovem e variado e, assim, alavancar as vendas. Porém, a instabilidade dos mercados mundiais, seguida da pandemia, não traduziu os resultados projetados, com seguidas reduções nos volumes e rentabilidade.

O esforço resultou na substituição do engenheiro Mattew Lavatich, depois de 26 anos de casa e cinco como CEO, em maio de 2020, pelo alemão Jochen Zeitz, que já tinha atuado na Puma e também pertencia ao conselho da Harley-Davidson. O novo CEO da centenária marca, então, criou o programa Rewire (algo como Religação), para desfazer a guinada.

Em 2021, Harley-Davidson se reestrutura no Brasil

O modelo Street 500 continua em linha nos Estados Unidos, assim como a LiveWire e a nova big Trail Pan America 1250 (será lançada mundialmente pela Harley-Davidson em fevereiro de 2021), mas a Bronx 975, com motor de dois cilindros em V a 60 graus, batizado de Revolution Max, duplo comando, refrigeração líquida e 115 cv fica adiada.

O programa Rewire, seguido do Hardwire que vai até 2025, foca nos modelos “tradicionais”, estradeiros de grande porte e maior cilindrada, que apresentam maior valor agregado e rentabilidade. O resultado da reestruturação global para recuperar a lucratividade perdida visa focar as atividades em 50 praças mundiais, incluindo o Brasil, que, sozinho, representa cerca de 65% de todo o mercado Latino Americano, do México à Argentina.

Entretanto, os efeitos da nova estratégia comercial mundial atingiram em cheio a proa da rede nacional de concessionárias. A linha Sportster, que respondia por cerca de 35% das vendas, deixa de existir no país e, com ela, o modelo de entrada Iron 883, por exemplo, que rondava a casa dos R$ 50 mil.

A motorização Milwaukee Eight 107 dos modelos Fat Boy, Fat Bob e Sport Glide, por exemplo, também sai de linha, restando somente as motorizações Milwaukee Eight 114 e 117, mais sofisticadas, o que não deixa de ser positivo, embora mais dispendioso.

Gama fica menor (e mais cara)

Além do fim da oferta dos modelos mais “baratos”, que proporcionavam maiores volumes de vendas, houve um aumento, em uma só tacada, de 25% na tabela, que reajustou o ticket médio dos produtos para cerca de R$ 100 mil (nos CVO Limited, por exemplo, são mais de R$ 210 mil).

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Na outra ponta, houve um corte radical de 50% na margem de lucro dos concessionários. Assim, cerca de um terço da rede, que representa 7 entre 23 pontos de vendas, desistiu do negócio, devolvendo a bandeira, mediante indenização da marca. Este movimento já estava previsto pelo fabricante, que pretende reforçar as características “Premium” dos modelos de sua linha.

Com isso, os volumes de vendas no Brasil também devem ser reduzidos drasticamente, em cerca de 50%, com previsão de venda de 2.900 unidades em 2021. Segundo a Abraciclo, Associação dos Fabricantes, a Harley-Davidson, líder nacional no segmento custom, chegou a produzir 8.052 motos em Manaus em 2013.

Mercado

O fechamento das fábricas da Ford do Brasil alimentou o debate sobre os rumos da marca de motos no país. A Ford saiu, entre outros motivos, pelo baixo valor agregado de seus produtos. A Harley-Davidson, ao contrário, permanece por aqui, eliminando de sua linha os modelos com menor margem de lucro, optando por manter somente aqueles mais rentáveis, mesmo com sacrifício de parte da rede e do volume de vendas.

Reforçando a estratégia, a Harley-Davidson apresentou virtualmente a nova linha 2021 nos Estados Unidos, somente com atualizações, especialmente na linha CVO (Custom Vehicle Operations). Há algumas poucas novidades que também poderão desembarcar no Brasil, dentro da nova proposta de operação comercial.

Porém, a Harley-Davidson já sinalizou que está desenvolvendo a substituta da gama Sportster e, no futuro próximo, poderá trazer a motocicleta elétrica LiveWire e a própria Bronx 975, além de concentrar esforços no lançamento da big trail Pan America 1250, que deve ocorrer em fins de 2021 ou início de 2022.

Com motor V2 Revolution Max arrefecido a líquido, modos de pilotagem e 145 cv, a Pan America 1.250 é equipada com painel TFT, suspensões de longo curso eletrônicas e freios Brembo. Um “alento” para o período de transição das concessionárias remanescentes. Porém, como nas lendas do futebol, “falta combinar com os russos”: no caso, com os clientes.

Linha Harley-Davidson CVO 2021

A Harley-Davidson criou a linha CVO em 1999, para motos mais sofisticadas, com acabamento exclusivo, pintura em tons diferentes dos demais, detalhes feitos a mão e motorização e componentes de maior performance. Uma estratégia de customização da própria fábrica para incorporar uma receita que antes ia para terceiros.

O motor da linha CVO é o Milwaukee Eight 117 (Milwaukee em homenagem à cidade onde foi fundada, no estado de Wisconsin, Eight pelo número de válvulas e 117 é o volume em polegadas cúbicas), que corresponde a 1.923 cm3: é o maior já construído pela Harley-Davidson. Com dois cilindros em V a 45 graus, entrega 17,2 kgfm de torque a apenas 3.500 rpm.

A iluminação é em LED, os punhos e bancos são aquecidos. As CVO também estão equipadas com o sistema Reflex de pilotagem defensiva (RDRS), que regula o controle de tração e a frenagem, mesmo em curvas.

As Harley-Davidson CVO Road Glide e Street Glide 2021, além das cores e acabamento próprios para 2021, receberam um sistema de som mais requintado, desenvolvido pela especialista Rockford Fosgate.

Linha Harley-Davidson Softail 2021

A linha Softail tem a principal atualização no modelo Fat Boy, que completou 30 anos em 2020, com motor Milwaukee Eight 114 e as clássicas rodas maciças. O visual volta às origens, incorporando mais peças cromadas em vez de pintadas.

O nome Softail, ou Rabo Macio, em tradução livre, é uma alusão aos antigos modelos que não tinham suspensão traseira e eram chamados de Rabo Duro, ou Hardtail. A tarefa de amortecimento ficava a cargo do pneu traseiro e das molas do banco, do tipo selim. Nas Softail, o amortecedor traseiro fica camuflado entre o quadro, quase na horizontal, para ficar parecida com as pioneiras “Rabo Duro”.

No Brasil, a linha Harley-Davidson Softail 2021 tem ainda as correspondentes Fat Bob 114, com guidão plano, suspensão dianteira invertida, escape duplo e pneus grossos, a Heritage Classic 114 (classificada pela Harley-Davidson brasileira como Touring), com alforges laterais, enorme pára-brisa e estilo bem clássico, e a a Low Rider S, quase toda pintada de preto, rodas em liga leve e suspensão dianteira invertida.

Linha Harley-Davidson Touring 2021

A linha Touring, com modelos estradeiros, tem no Brasil a Road King Special, a Steet Glide Special, a Road Glide Special (com carenagem nose shark, ou nariz de tubarão), a Ultra Limited, com bolsas e baú central e a tradicional carenagem estilo asa de morcego, e a Road Glide Limited, também com bolsas laterais e baú e carenagem nariz de tubarão.

Todas têm o motor Milwaukee Eight 114, com 1.868 cm3 (na Ultra Limited e na Road Glide Limited, o motor 114 conta com arrefecimento suplementar a líquido), acoplado a uma caixa de seis velocidades com transmissão final por correia dentada de kevlar. A sexta marcha é mais longa, o que proporciona maior velocidade nas estradas, com menor rotação e também economia de combustível.

A Ultra Limited também conta com carenagem, baú, sistema de som e recursos eletrônicos. Os modelos Special, Road king, Street Glide e Road Glide, com novas cores, mais espaço nas pedaleiras para os pés e LEDs, também possuem estilo bagger, com bolsas laterais e traseira mais baixa.

Teo Mascarenhas

Especialista na cobertura do mercado de motocicletas e competições com mais de 30 anos de experiência.

Teo Mascarenhas
17 Comentários
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ANTONIO JOÃO Dias 2 de fevereiro de 2021

A Hamlet e a indiana sao dias marcas que nós amamos sao exemplos que deveriam ser seguidas…eu amo meu maior sonho é um dia possuir uma Hamlet mas meu ganho e pouco.eu só tive uma Suzuki 125 .mas um dia eu ganho uma Hamlet eu amo eu amo a Hermeto davidson

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Jean 27 de janeiro de 2021

Toda razão Kleiton Estevam.

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Luis Carlos 26 de janeiro de 2021

Informação equivocada sobre a motorização, a Harley tbm tem motores 128” e 131” tbm.

AutoPapo
Teo Mascarenhas 28 de janeiro de 2021

Os motores Screamin Eagle 128 e 131 polegadas cúbicas, são oferecidos somente em kits e apenas para reposição. Não equipam qualquer modelo de série, que possuem no máximo motores 117, como apontado. Os motores 128 e 131 também não são homologados ambientalmente na Califórnia e na Europa.

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João Manoel Fernandes 26 de janeiro de 2021

Tive 3 ULTRAS LIMITED sendo a penúltima uma CVO .
EM 2019 comprei uma GWT e não me arrependo!
Muito marketing e pouca inovação na HD.

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OAC 26 de janeiro de 2021

É, ficou muito difícil pensar em trocar a minha Heritage !!
Ficarei com ela até o fim…

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Neimar Mariano de Arruda 26 de janeiro de 2021

Rasgue o documento de transferência. Tenho uma Road king special 2020, mas a Heritage é sensacional.

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Marco Piacentini 29 de janeiro de 2021

As duas motos mais lindas da linha, na minha opinião.

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Carlos Estevam Marques Filho 26 de janeiro de 2021

Tenho um fatboy oo8 que considero o modelo tradicional da HD, ela é o retrato da estradeira HD, todavia é lamentável que os novos modelos da fat estão fora da sua origem, sua raíz. Os faróis é um triste exemplo, qual o motivo que os engenheiros resolveram mudar a sua forma redonda de décadas passada, como também as rodas maciças furadas. Conhecidas pelo mundo afora a fat boy seguia seu modelo considerada a mais estradeira do mundo, sendo portanto perfeita. Que idiotice mudar o certo pelo errado, se querem renovar façam ser mais modernas internamente mas não ousem mudar um modelo histórico. Vou ficar com a minha até o fim da minha vida, não vou compactuar com a demência de alguns idiotas que não preservam tradições. Quem extingue o passado não tem futuro. Que pena, que falta de inteligência.

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Lincolnks76 26 de janeiro de 2021

….mataram a.fat boy em 2017….
Essa nova e outra moto…fat boy não é!

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Sérgio Pereira Brandão 28 de janeiro de 2021

Concordo plenamente com vc amigo. Tenho uma Sportster XL 883 C 2007 e não troco ela por nenhum desses modelos mais recentes da HD.
Tradição é uma relíquia e compromisso que tds as marcas deveriam manter com seus clientes e admradores.

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ALBERTO DE MATOS SANTANA 26 de janeiro de 2021

O que já era difícil de se adquirir agora vai ficar perto do impossível. Mas como o mundo vive de ciclos, quem sabe um dia a marca retorne às origens de fato e produza motos para todos?

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Marco Piacentini 26 de janeiro de 2021

A BMW e a Triumph vão agradecer ao pior erro estratégico cometido pela HD em décadas. Qualquer pessoa que entenda um pouco de gestão sabe que uma marca se sustenta e se consolida a partir dos produtos de entrada. Assim se pobtém o acesso ao produto e aos serviços, iniciando no “básico”, para chegar ao “premium”, ou simplesmente se mantendo na linha. Se, por um lado, o produto de entrada tem valor agregado menor, o volume de vendas compensa esse “gap”. Além disso, Vão fazer a marca deixar de representar um estilo de vida para representar luxo e ostentação, o que vai na conrtamão da lógica. É realmente lamentável.

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HAROLDO RODRIGUES 26 de janeiro de 2021

Quem tem softail, motor 114, não tem razão para trocar por ano 2021, só porque tem cromados e menos cores. A Triumph aumentou a performance da ROCKET III. A DUCATI aumentou a performance da DIAVEL. A BMW aumentou a performance da GS. Todos os fabricantes melhoram para conquistar o consumidor. Cromados e redução na palheta de cores são mudanças que não motivam o consumidor trocar a moto. Este motor 114, que já tem mais de quatro anos no mercado, devia ter sido aposentado. Muito fraco para as Ultra, que tem mais de 400 KG e são movimentadas por motor com menos de 100 HP. As concorrentes HONDA GOLD e BMW RT são mais leves e tem motor mais forte, e avançaram em performance geral, dando muito prazer na pilotagem. A HARLEY está sucateando o produto. O motor 131, que está sendo oferecido em kit nos USA, seria uma esperança de melhora. O atual presidente da HARLEY, que a matéria afirma vir da PUMA, não parece ter mínima paixão por motos. Não conseguiu motivar o consumidor com esta maquiagem e redução na palheta de cores dos modelos 2021. O consumidor ficou desapontado e não tem razões para trocar a moto. A HARLEY vai ficando pra traz da concorrência, cada vez mais competente.

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Kleiton Estevam 26 de janeiro de 2021

Na verdade eu acho que ele (CEO) quer inovar, mudar o segmento, estamos na era dos movimentos ambientais, preservação do meio ambiente, sem poluir o ar, o mar, oceanos e etc. Então eu creio que em menos de 10 anos não haverá mais veículos à combustão, mas sim somente elétricos, e a nova geração quer isso, não quer fumaça, cheiro de gasolina, nada de graxa, então evoluir neste mundo tecnológico que cresce de forma esmagadora, quem não atualiza some, e o caso da FORD, não investiu em tecnologia e faliu, mas a Tesla vale mais que todas as fabricantes do mundo juntas.

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Marco Piacentini 29 de janeiro de 2021

Esse novo CEO vai empurrar a marca mais tradicional e apaixonante de motocicletas do mundo precipício abaixo. NEm a justificativa ambiental se encaixa no perfil desse beócio, já que está tentando matar o projeto LiveWire. uma pena. Já tive uma XL 1200 CB 2017. A ciclística já era ruim devido às atualizações. Vendi e comprei uma XL 883 R 2010. Mais antiga, porém muito melhor de pilotar e manobrar. Não dá nem pra comparar. Parece que a marca está andando pra trás em vez de evoluir… De novo… Dá pena de ver.

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Tiago 29 de janeiro de 2021

Perfeita análise Marco Piacentini!

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