Carros de entrada podem acabar: fábricas preferem os mais caros

Setor tem deixado de desenvolver os chamados "carros populares" e apostado em modelos luxuosos: entenda porque isso acontece

Por Alexandre Carneiro 28/05/21 às 10h40
ka etios up c3
Vários modelos de entrada saíram de linha em 2021 (Fotomontagem: Ernani Abrahão | AutoPapo)

Quem acompanha o mercado de carros já pode ter percebido que os chamados populares estão em pleno declínio. Somente em 2021, saíram de linha Ford Ka, Volkswagen up!, Toyota Etios e Citroën C3. Outros modelos, como Fiat Uno e Volkswagen Fox, permanecem à venda, mas sem qualquer perspectiva de futuro. Nenhum deles terá sucessor direto: os fabricantes preferem investir em produtos de segmentos superiores.

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O caso da Ford é o que gerou maior repercussão: em janeiro, a multinacional fechou todas as suas fábricas no Brasil para se dedicar a veículos importados. O produto mais acessível da gama atual é a Ranger XL Cabine Simples, que parte de R$ 170.190.

Porém, outros fabricantes têm tomado rumos semelhantes. Luca de Meo, CEO mundial da Renault, já anunciou que a empresa mudará a estratégia comercial: o foco passará dos populares para SUVs e carros mais luxuosos. Por sua vez, a General Motors (GM) também priorizará a produção de veículos com maior valor agregado, para tentar driblar a escassez de componentes, em especial de semicondutores, que são importados.

O que causa espanto em estratégias desse tipo é que os segmentos de sedãs e hatches compactos dominam as vendas no país há pelo menos 30 anos. A produção nacional, inclusive, está concentrada em modelos desses gêneros: o país produz poucos veículos de categorias superiores. Afinal, que está acontecendo com o mercado?

O AutoPapo consultou especialistas para entender tal questão. E eles são unânimes em afirmar que essa onda de extinção dos carros populares tem um único objetivo: manter a lucratividade dos fabricantes em um momento de crise para o setor automotivo.

Carros populares têm margens de lucro menores

A professora Adriana Marotti, da FEA (Faculdade de Economia e Administração) da USP (Universidade de São Paulo), explica que carros populares têm uma margem de lucro mais baixa. “Eles precisam de grande volume de vendas para gerar rentabilidade”, afirma. E o grande problema é que os segmentos da base do mercado automotivo são justamente os mais afetados pela crise.

Vale destacar que as vendas de carros populares geralmente são feitas à prazo. Há cerca de 10 anos, era possível pagar por um veículo em até 70 parcelas mensais. “Houve um crescimento muito grande da chamada Classe C, com vendas à base de crédito, devido às políticas econômicas dos governos Lula”, lembra a professora. Atualmente, o púbico alvo desses modelos tem grande dificuldade para obter financiamentos.

Carros mais caros dão mais lucro

Por outro lado, “carros mais caros têm margem de lucro maior”, sintetiza o jornalista Joel Leite, diretor da agência AutoInforme, especializada no mercado automotivo. Assim, basta que os fabricantes vendam relativamente poucas unidades dos chamados veículos premium para assegurarem o rendimento esperado.

Além disso, pessoas com maior poder aquisitivo, capazes de comprar esses modelos, tendem a sofrer menos os efeitos da crise. Ao priorizarem os segmentos de luxo, os fabricantes atingem as únicas camadas de consumidores que não perderam poder de compra. Esse público é pequeno, mas garante lucro com baixos números de vendas.

Extremos do mercado

Alguns dos últimos lançamentos do mercado parecem respaldar esse raciocínio. Em dezembro de 2020, um lote de 100 unidades da picape Ram 1500 foi vendido em menos de 24 horas. Como cada veículo custava R$ 419.990, a Stellantis faturou um total de R$ 42 milhões somente com esse modelo.

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Stellantis vendeu todas as unidades da Ram 1500 que trouxe ao Brasil: cada uma custou R$ 419,9 mil (Foto: RAM | Divulgação)

A Ford foi outra a obter bom resultado com estratégia semelhante: de um dia para o outro, comercializou todos os 80 exemplares do Mustang Black Shadow disponibilizados para o mercado brasileiro. O preço de cada veículo era de R$ 499.000. A ação de pré-venda ocorreu no último mês de abril e rendeu R$ 40 milhões aos cofres da empresa.

Curiosamente, na outra ponta do mercado também há demanda: a procura por veículos de segunda mão está alta, de modo que alguns modelos até valorizaram nos últimos meses. “Quem realmente precisa de um carro tem recorrido ao mercado de usados, que são os que cabem no orçamento neste momento”, pontua Marotti.

A opinião de Leite, da AutoInforme, é semelhante: para ele, trata-se de uma forte evidência de que o poder de compra das classes mais baixas diminuiu. Afinal, o consumidor que compraria um carro novo do segmento popular há alguns anos é o mesmo que, hoje, recorre ao mercado de usados.

Veículos novos em queda

Os números do mercado de veículos zero-quilômetro confirmam o que dizem os especialistas. De acordo com levantamentos da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), as vendas do setor chegaram ao ápice em 2012, quando 3.634.506 novos veículos foram emplacados no país. Já em 2020, esse total não passou de 1.950.889 unidades: 53,7% do recorde atingido 8 anos antes.

Entretanto, cabe destacar, o mercado não encolheu como um todo: os carros de menor valor, principalmente os populares, foram os mais afetados. Leite relembra que, até 2012, o ranking formado pelos 10 automóveis mais vendidos do país era composto unicamente por compactos. Hoje, picapes e SUVs já aparecem nessa lista. O jornalista da AutoInforme avalia que:

Essa tendência se deve ao empobrecimento dos consumidores da base do mercado.”

Picapes em alta

O segmento de picapes, aliás, é outro que está em alta, na contramão do mercado. Marotti atribui esse fenômeno ao agronegócio, um dos únicos setores da economia do país que se mantém lucrativo. Não por acaso, vários fabricantes, como Volkswagen, Ford, Chevrolet e Peugeot lançarão caminhonetes no Brasil até o ano que vem.

São segmentos em situações opostas: a professora pondera que, desde 2013, os veículos de entrada vêm sofrendo os efeitos da crise econômica. Em 2020, a desvalorização do Real e o surgimento da pandemia agravaram ainda mais a situação. “Foi o golpe de misericórdia em um mercado que já estava cambaleante”, conclui.

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Apesar do Real desvalorizado, exportações estão em baixa (foto: Shutterstock)

Para piorar, países para os quais a indústria nacional tradicionalmente exporta veículos também sofrem os efeitos da pandemia.  A especialista da USP diz que:

O Brasil veio perdendo cada vez mais participação no mercado externo; a indústria (automotiva) exporta, hoje, só para a América Latina, praticamente.”

Essa soma de fatores faz da importação de modelos premium uma alternativa de curto prazo para o setor.

Indústria nacional depende dos carros populares

A importância dos carros populares para a indústria nacional torna o cenário ainda mais preocupante. É que as fábricas instaladas no país produzem, majoritariamente, automóveis compactos, para a base do mercado. Portanto, o setor depende de volumes de vendas elevados para se manter competitivo.

Para Marotti, ainda é cedo para tirar conclusões. Porém, a professora alerta para o risco de desindustrialização, com o fechamento de mais fábricas, caso a situação não seja revertida. Ela sugere a adoção de medidas econômicas para mudar o rumo do setor. “Se houver aumento do poder de compra nos próximos anos, o mercado de carros populares pode voltar a crescer,” antevê.

Boris Feldman comenta a evolução dos motores 1.0!

14 Comentários
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Polvo 10 de junho de 2021

O carro popular de verdade, só vai voltar se houver um belo incentivo do governo. Uma grande redução de impostos para este tipo de veículo, pode fazer com que os fabricantes se interessem em produzi-los e tenham uma margem razoável de lucro.

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Leandro 1 de junho de 2021

“veículos com maior valor agregado”. Traduzindo: Mesma porcaria de sempre, mas que agora está na moda e pode vender por um valor a mais do que vale.

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Wal Dornellas 30 de maio de 2021

Considerando a forte concentração de renda verificada no Brasil e que só tende a aumentar, só vai existir mercado para produtos de luxo. Para imensa maioria dos brasileiros, que está se tornando cada vez mais pobre, vai sobrar apenas o consumo de produtos para subsistência.

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Joelson Jose C. Dantas 3 de junho de 2021

Essa estória de vender produtos com maior valor agregado é ótima para as empresas, mas é péssima pros consumidores de menor renda. Como sempre, o dinheiro fala mais alto. INFELIZMENTE

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Zé Pilinta 29 de maio de 2021

Acredito que as grandes montadoras vão ficar nos carros a partir dos médios e vão deixar os carros populares para as suas versões chinesas

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Bijuja 28 de maio de 2021

A indústria automobilística brasileira ainda irá amargar por essa decisão.
Chegará o dia em que terão que depenar seus Suvs para poder vendê-los por um preço mais em conta, porque essa fase dos “400 mil” brevemente irá passar.
Quem viver verá e os tolos que acreditaram nessa hipótese, irão se danar.

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Done 28 de maio de 2021

Mas os carros populares a muito não existem mais, principalmente pelo valor cobrado.

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Rafael 28 de maio de 2021

O nosso poder de compra diminuiu bastante. O preço acompanhou a inflação e o dólar, o nosso salário não. O artigo fala disso, é o nosso poder de compra que diminuiu, principalmente na classe C.

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Damianse 28 de maio de 2021

Vai virar o país dos carros velhos!!!

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Comentarista 28 de maio de 2021

Por mim pode acabar. Melhor andar só de Uber pq é mais eficiente, econômico e o cidadão não sofre o estresse do trânsito e com o preço do combustível, manutenção etc…

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Fernando B 28 de maio de 2021

E o Uber é o que? Uma nave interplanetária?

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Nilson 28 de maio de 2021

A maioria dos carros em serviço nos aplicativos são hatches e sedãs pequenos, modelos de grande volume.
Acredito que os motoristas de aplicativos não estejam numa situação que os permita alugar ou até comprar um carro de categoria superior.

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Fernando 28 de maio de 2021

Só que senão tiver carro popular, não vai ter uber

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Paulo henrique guedes 28 de maio de 2021

O problema que os suvs é muito caro nem todo mundo tem o poder aquisitivo pra comprar. acho errado tirar carros populares só no nome porque no preço numca foi popular.

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