Combustíveis: brasileiro paga caro pela falta de planejamento do governo

É uma medida emergencial atrás da outra; elas não resolvem o problema e algumas acabam transferindo renda do pobre para o rico

gasolina no brasil
País não tem diretrizes governamentais sobre o futuro da nossa matriz energ[etica (Foto: Shutterstock)
Por Boris Feldman
26 de março de 2022 07:33

Disse o jornalista norte-americano H.L. Menckel (1880-1956) que “para todo problema complexo existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada”. Lembrei-me de Menckel ao acompanhar as soluções propostas pelo Legislativo e Executivo para conter a alta dos preços dos combustíveis.

A primeira solução “simples” foi na gestão Dilma Roussef. Ela questionou a paridade dos preços dos combustíveis à cotação internacional do petróleo. Argumentou que o “petróleo é nosso” e cortou a dependência.

VEJA TAMBÉM:

Preços da gasolina e diesel se estabilizaram nos postos, apesar da volatilidade internacional da cotação do petróleo. Só se “esqueceu” das consequências: a medida provocou um rombo de R$ 100 bilhões no caixa da Petrobras, e quase quebrou a empresa. Que não é só estatal, mas pessoas físicas e jurídicas são também acionistas e perderam uma grana graças à D. Dilma.

As soluções “simples” continuam: no governo Bolsonaro, cada vez que sobe o petróleo (desta vez foi pela invasão da Ucrânia pela Russia), diesel e gasolina acompanham a alta. Chiam taxistas, uberistas, caminhoneiros e motoristas. E o presidente repete a presidente: “a paridade não pode continuar”.

Quem paga a conta?

É fácil interferir nos impostos para baixar o preço do combustível na bomba. Porém, a redução destes tributos significa menor arrecadação aos cofres públicos, que deve ser compensada pelo governo aumentando outros impostos ou tomando emprestado no mercado financeiro, o que provoca inflação que será sentida principalmente no bolso do pobre.

Para reduzir o rombo no caixa do governo, outra idéia é manter o imposto da gasolina mas aumentar o subsidio do diesel, combustível de caminhões (cargas) e dos ônibus (passageiros) e proibido aos automóveis. Ele já paga menos imposto que a gasolina para aliviar o preço do frete e das passagens. Mas acaba beneficiando uma boa parcela dos ricos pois abastece também dezenas de milhares de luxuosos utilitários esportivos.

Como assim?

Teoricamente, o diesel só poderia abastecer veículos rurais (além de caminhões e ônibus), jipes entre eles, a partir de uma decisão do governo em 1976, em plena crise do petróleo e para reduzir sua importação. Por isso, o diesel foi proibido aos automóveis. Mas no final da década de 90 a Mercedes-Benz conseguiu convencer o governo a homologar seu SUV ML 320 CDI (a diesel) como jipe apesar de não ter a reduzida, dispositivo mecânico obrigatório para essa classificação.

Nesta controversa homologação, o Contran avalizou uma ilegalidade que vai rigorosamente de encontro à própria decisão do governo de reservar o diesel aos veículos agrícolas. E abriu porteiras à importação de luxuosos SUVs que aliviam o bolso do rico com o subsídio destinado ao pobre.

mercedes benz ml 320 cdi
Mercedes abriu a porteira para os SUVs de luxo movidos a diesel (Foto: Mercedes-Benz | Divulgação)

Sem estratégia

Nossos governantes jamais estabeleceram um planejamento para tornar nossa matriz energética minimamente dependente do petróleo. Só decisões para apagar incêndios, medidas corretivas e pontuais.

Se reduz o imposto sobre todos os combustíveis, provoca inflação que pesa principalmente no bolso do pobre. Se reduz só o diesel, alivia a conta dos donos de luxuosos SUVs às custas de quem abastece com gasolina sua Brasilia amarela.

Nesta semana, um fato inédito: o governo brasileiro finalmente anunciou um planejamento: um plano de incentivo ao gás metano. Mas ainda não anunciou um planejamento bem estruturado para produzir outros combustíveis a partir de seus recursos naturais: biocombustíveis que já existem e podem substituir a gasolina (etanol) e o diesel (biodiesel, diesel verde).

Outra medida “emergencial” desta semana foi a redução do imposto sobre a gasolina, etanol e GLP (gás de cozinha), válida até dezembro deste ano. Ou seja, assim que passarem as eleições…

E outro “quebra-galho” foi dos governos estaduais que prorrogaram por mais 90 dias o congelamento do ICMS sobre combustíveis, já estacionado desde novembro de 2021.

Por enquanto, como disse Menckel, nossos governantes só adotam soluções simples e burras, incapazes de resolver o complexo problema de combustíveis, pois exigiria deles a inexistente capacidade técnica e de visão do futuro.

Falo sobre a “miopia” do governo brasileiro quando o assunto é matriz energética. Confira:

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13 Comentários
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Santiago 28 de março de 2022

Numa conta simples, o Brasil produz e refina pelo menos dois terços de todo o petróleo que consome, a custos locais e em Reais.
Já o terço restante é composto por itens importados (petróleo leve para facilitar o refino, insumos industriais, combustíveis e derivados prontos), pagos em Dólares.
Ou seja, de cada três litros de gasolina e diesel vendidos no Brasil, pelo menos dois litros têm CUSTOS LOCAIS, mas são vendidos na cotação internacional.
Esse é o grande e verdadeiro problema!
Não são os impostos, não é o governador A ou B, e não é esta ou aquela ideologia política.

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Paul Muadib 30 de março de 2022

A PETROBRAS hoje só abastece 44% do mercado consumidor de gasolina.

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Mister Gasosa 27 de março de 2022

Hoje é a gasolina que está na cotação internacional, amanhã quando a gasolina foi proibida a comercialização será o etanol e quando o etanol for proibido será a conta da energia elétrica.
Não temos pra onde correr… somente nos resta aceitar a realidade!

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HAF 31 de março de 2022

Energia elétrica por geração própria não entra nessa conta… é viavel e teoricamnete simples de implementar. Com 40k não entra somente o carro, porém há economia para toda a residencia. Veiculos eletricos usados também são uma opçã. Também entra na conta veiculos de duas rodas e semelhantes para curtos percusos. É questão cultural nossa mesmo, tanta depedencia fóssil.

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Celigny 26 de março de 2022

Parece que nossos jornalistas culpam o “mundo todo”, mas não são capazes nem de citar o nome do atual presidente.
Texto inócuo e sem sentido.
Não sou de esquerda nem de direita, mas também felizmente não sou tendencioso, e tenho por costume ler as reportagens de sites internacionais sobre o Brasil que não são nada boas.

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HAF 31 de março de 2022

Verdade amigo… e posso até estar falando algo équivoco… mas este parágrafo abaixo além de tendencioso não é também lógico… “Se reduz o imposto sobre todos os combustíveis, provoca inflação que pesa principalmente no bolso do pobre. Se reduz só o diesel, alivia a conta dos donos de luxuosos SUVs às custas de quem abastece com gasolina sua Brasilia amarela.” >> Oras…Se reduz o imposto, o preço desce, a economia gira mais e mais renda e mais imposto retornado, a economia agradece, menor preço de passagens e meu feijão com arroz mais barato, pois o frete é menor.. é tipo venda por volume, vende-se mais e ganha-se por volume… mas ao que parece o reporter está revoltado com os donos de suvs a diesel que são uma ínfima minoria… vai entender…

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Milton Eller 26 de março de 2022

Bom dia
A décadas o mercado deveria ter sido aberto a outras empresas para explorar petróleo e consequentemente fornecer combustíveis, iria gerar concorrência, teriamos preços mais baixos para combustíveis e derivados (lubrificantes, etc). Mas no Brasil tudo é “estratégico” fica nas mãos do governo e nada funciona.

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Paul Muadib 30 de março de 2022

A PETROBRAS só teve o monopólio de extração, e isso até 1997. O mercado de refino e distribuição sempre foi aberto, mas as empresas estrangeiras nunca quiseram investir aqui. E se você acha que ir para a mão da iniciativa privada abaixa os preços, pesquise agora e verá que a refinaria com o preço mais alto de venda dos produtos é a da Bahia, aquela que foi vendida pela PETROBRAS.

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José Carlos da Santos 26 de março de 2022

Solução energética para país pobre não existe. Não tem jeito. Carro elétrico sofre com o descarte da bateria. Combustível fóssil com preços extratosféricos para agradar acionistas com grave ataque ao já afunhinhado contribuinte, não é justo. Definitivamente, a melhor saída do país ainda continua o aeroporto. E, aparentemente, estamos a caminho das trevas. Novamente.

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Felipe Tavares 26 de março de 2022

Se a petrobras não tivesse sido roubada como foi, se ao menos 2 das grandes refinarias que deveriam estar prontas a muito tempo o país seria autossuficiente em gasolina e diesel a um bom tempo .O monopólio na extração deu nisso a empresa não tem capacidade para investir como deveria para isso ,deveria ter sido privatizada a muito tempo ,fato .Essa é a real ,o custo de produção do elétrico e altíssimo ainda ,é justo o povo “financiar “ ,ou melhor subsidiar os elétricos ,a meu ver não ,

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Paul Muadib 30 de março de 2022

A PETROBRAS não tem monopólio de extração desde 1997. E se fosse privatizada, o preço dos produtos ainda estaria mais caro que agora, vide a refinaria da Bahia que foi vendida e agora pratica os preços mais caros do Brasil.

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Felipe Tavares 26 de março de 2022

Se a petrobras não tivesse sido roubada como foi, se ao menos 2 das grandes refinarias que deveriam estar prontas a muito tempo o país seria autossuficiente em gasolina e diesel a um bom tempo .O monopólio na extração deu nisso a empresa não tem capacidade para investir como deveria para isso ,deveria ter sido privatizada a muito tempo ,fato .Essa é a real ,o custo de produção do elétrico e altíssimo ainda ,é justo o povo “financiar “ ,ou melhor subsidiar os elétricos ,a meu ver não ,reportagem 👎🏻

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Santiago 27 de março de 2022

Numa conta simples, o Brasil produz e refina pelo menos dois terços de todo o petróleo que consome, a custos locais (em Reais). Já o terço restante é composto por itens importados (petróleo leve para facilitar o refino, insumos industriais, combustíveis e derivados prontos), pagos em Dólares.
Ou seja, de cada três litros de combustíveis vendidos no Brasil, pelo menos dois litros têm CUSTOS LOCAIS mas são vendidos na cotação internacional.
Esse é o grande e verdadeiro problema!
Não são os impostos, não é o governador A ou B, não é essa ou aquela ideologia política.

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