Ford não é a única a destruir carros: por que os fabricantes fazem isso?

Saiba que essa prática é muito mais comum do que parece: toda a indústria costuma escrapear veículos, em diferentes situações

Por Alexandre Carneiro 31/03/21 às 09h05
carroceria de ka branco sendo destruido pela ford na fabrica de camacari
Ford destruiu cerca de 900 carrocerias de Ka e EcoSport no início deste mês (Imagem: YouTube | Reprodução)

Cerca de 20 dias atrás, um vídeo que circulou pelas redes sociais deixou muita gente chocada: as imagens mostravam carrocerias dos modelos Ka e EcoSport sendo esmagadas na fábrica da Ford em Camaçari (BA). Vale lembrar que a multinacional encerrará todas as atividades industriais no país, passando a operar apenas como importadora. Mas, afinal, qual o motivo da destruição dos veículos?

Assista ao vídeo e relembre o caso:

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O AutoPapo contatou a assessoria de imprensa da Ford, que confirmou a veracidade das imagens. A empresa explicou, simplesmente, que a destruição das cerca de 900 carrocerias faz parte do “processo de preparação para o fechamento da fábrica”. Porém, a resposta a essa pergunta cabe em uma única palavra: custo.

Vale lembrar que, quando ocorreu a filmagem, a produção de veículos em Camaçari já estava encerrada. Por sua vez, os funcionários organizavam piquetes contra o processo de demissões. Diante desse cenário, possivelmente, a solução mais viável para a Ford, tanto do ponto de vista financeiro quanto do operacional, foi simplesmente destruir as carrocerias e revender o aço como matéria-prima.

Destruição em fábrica da Ford não é caso raro

Embora o episódio da Ford envolva a desativação de fábricas, essa prática de destruir veículos – ou melhor, escrapear, como as próprias empresas do setor costumam designar tal processo – é bem mais comum do que parece. Ricardo Dilser, assessor técnico do Grupo Stellantis, explica que diferentes fatores podem levar ao escrapeamento de veículos, mas todos eles estão ligados à redução de custos.

flagra fiat strada camuflada em testes foto alexandre carneiro autopapo
Após o término dos testes, protótipos geralmente são escrapeados (foto: Alexandre Carneiro | AutoPapo)

Ele ilustra a situação com o caso dos protótipos, utilizados durante o desenvolvimento de novos produtos: eles ainda não têm as especificações finais determinadas pelo fabricante; ademais, geralmente não possuem sequer numeração de chassi. Regularizar esses veículos para venda, tanto no ponto de vista fiscal quanto industrial, seria inviável financeiramente, segundo o especialista:

Há várias questões envolvidas, desde a cadeia de incisão de impostos até a própria finalidade do veículo: quando o ciclo de trabalho chega ao fim, a solução mais econômica é escrapear o protótipo.”

Veículos pré-série, que saem da linha de produção durante o período de adequação do processo, também podem ter como destino a destruição total. Nesse caso, porém, Dilser salienta que tudo dependerá da fase de desenvolvimento: carros já dotados de numeração de chassi e capazes de atender às especificações do fabricante podem ser vendidos sem problema algum.

Questão de custo

O assessor técnico também cita o exemplo dos veículos importados para fins experimentais – outra prática comum no setor. Quando a indústria vai nacionalizar algum modelo ou até mesmo desenvolver um novo produto, similares fabricados em outros países costumam ser usados para balizar o projeto. O problema é que tais carros vêm unicamente para testes, pois não são homologados para venda no Brasil. Ao final do processo, pode ser mais barato destruí-los que mandá-los de volta aos locais de origem. “Tudo depende do custo”, sintetiza Dilser.

Se você está surpreso, saiba que, no passado, o escrapeamento era ainda mais comum. Isso porque os setores de qualidade das fábricas também costumavam destruir alguns veículos, justamente para verificar o cumprimento dos parâmetros de manufatura. Porém, Dilser esclarece que, devido aos controles mais rígidos dos processos de fabricação atuais, é possível detectar problemas antes da finalização do produto, tornando essa prática desnecessária. Por outro lado, os crash tests continuam essenciais para atestar a segurança dos automóveis.

Episódios famosos de destruição em massa

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Falha estrutural selou o destino da picape Pantanal (foto: Troller | Divulgação)

Embora mais recente, o caso da destruição das carrocerias de Ka e EcoSport não é o primeiro desse tipo a ganhar notoriedade. Em 2007, a Troller, que, coincidentemente, também pertence à Ford, escrapeou quase todos os 77 exemplares produzidos da picape Pantanal. Motivo: o fabricante detectou que o chassi poderia simplesmente trincar. Por se tratar de uma falha estrutural, era inviável solucioná-la por meio de recall.

Em 2019, foi a vez da Volkswagen protagonizar um caso memorável de destruição em massa. A fabricante anunciou um recall para recomprar e escrapear 194 veículos, de diferentes modelos: a lista incluía Gol, up!, Golf, Tiguan, Touareg, CC, Passat, Saveiro, Polo, Parati, Voyage, Fox e CrossFox, produzidos entre 2008 e 2017. Todos eles eram pré-série e, por isso, tinham falhas na documentação interna de registro, além de apresentarem inconformidades com os parâmetros de produção.

9 Comentários
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Airton 8 de abril de 2021

O brasileiro além de dramático parece que cada dia fica mais ignorante , Trata se de um processo dentro da gestão da empresa e ponto. Me entristece ver colunistas ditos formadores de opiniões perdendo tempo com essa besteira, toda indústria de qualquer seguimento faz isso baseado em seus processos e suas finanças, Na minha opinião se não sou profissional do seguimento e especificamente área de custo/desenvolvimento ou outra que está ligada a essa operação específica , devo ficar quietinho e cuidar da minha vida .

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Valdeir Benedito Ferreira 5 de abril de 2021

Isso é inaceitável i os que já foram vendidos e precisar de peças como campus,portas,portas traseiro como que faz vai deixar os clientes na mão.

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Edson Nogueira 4 de abril de 2021

Infelizmente o brasileiro tem lembrança fraca. Vejam o exemplo da Chrysler, que operou no Brasil entre 1967 e 1981, abandonou seus clientes, mas hoje fatura muito, através da Fiat/Chrysler (Grupo FCA – atualmente Stellantis), com sua marcas principais Fiat e Jeep.

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DGJR 1 de abril de 2021

Isso também envolve questões legais. Doar ou comercializar essas carrocerias poderia implicar em imputação de responsabilidade para a montadora em caso de falhas e/ou acidentes. Em treinamentos de ISO 9000 eles dão exemplos sobre como as empresas devem evitar essas situações.

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Carlos 1 de abril de 2021

Ford, nunca mais

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Douglas Ferreira Henrique 31 de março de 2021

Tinha que boicotar essa marca,mas o que sempre prevalece e dá o primeiro passo e a classe A ,que serão os primeiros a comprar as pick up importada,eu não sei como algumas empresas vem de fora e depois se estabelece aqui ,e consegue ganhar mercado aqui no nosso Pais…..eles já estabelecido não consegue pelo menos empatar no mercado,depois faz esse papelão….dependendo de mim ,eu e quem me ouvir ,já mais terá um Ford na garagem

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Alex grego 31 de março de 2021

Inaceitável..destruir veículos dessa forma…e todos super novos..alguns bastavam ser acabados pois já estavam pintados..lamento profundamente a atitude da Ford..q deu de ombros para o consumidor brasileiro q algum dia foi fiel a ela..

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Romeu Alonso Teixeira 31 de março de 2021

Poderia fazer um preço melhor para pessoas que ganham menos mais ninguém ajuda ninguém o set humano no mundo é assim

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Fabiano Negreiros 31 de março de 2021

A grosso modo seria bom mesmo Romeu, mas tem a questão jurídica e técnica envolvida, se acontece qualquer coisa com um veículo desse, a montadora corre o risco de ser processada, manchar seu nome e ainda perder milhões, deste modo é doloroso dizer que custa menos destruir. Igual lanche frio no McDonald’s eles jogam fora ao invés de dar para alguém, seguindo o mesmo princípio de estarem fora das especificações.

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