‘Big Boss’ da Ford preocupado com o terremoto que abala o setor

Mister Farley expõe a reviravolta de conceitos com profundas e inesperadas modificações no comportamental da indústria

jim farley ceo ford
Jim Farley, o 'chefão' da montadora norte-americana (Foto: Ford | Divulgação)
Por Boris Feldman
19 de junho de 2022 07:33

O setor dos automóveis sempre passa, como todos os outros, por transformações que interferem diretamente no relacionamento e na postura de seus integrantes. Uma completa reviravolta, desde os processos de manufatura até as linhas de montagem que foram automatizadas e fábricas de autopeças que se instalaram sob o mesmo teto ou em suas proximidades.

O relacionamento fábrica-concessionário virou de ponta-cabeça e ninguém imaginava – 30 anos atrás – que um grupo econômico pudesse distribuir diversas marcas de automóveis. Nem que tantas fabricantes que concorriam ferozmente entre si viriam a se tornar mesma família sob uma única holding.

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E mais: até o conceito de concessionária está sendo questionado, principalmente com o definitivo ingresso da internet que interfere no comércio de novos e usados. E na manutenção dos automóveis. Já se duvida até da real necessidade de uma rede de revendas autorizadas nos moldes atuais.

Durante dezenas de anos as indústrias norte-americana e europeia comandaram o carshow até se curvarem diante do desenvolvimento dos países asiáticos.

Jim Farley e o terremoto

Jim Farley, presidente da Ford, comentou em recente entrevista que o setor não passa apenas por modificações, mas, no momento, por um “terremoto”, tantos os novos conceitos que atingem toda sua infraestrutura.

A eletrificação é o principal destaque no tabuleiro destas movimentações, com foco no desenvolvimento de motores e baterias e na radical transformação das linhas de montagem.  Acompanhada da proliferação de startups que vão marcando presença em cada atividade do setor e a introdução da inteligência artificial em decisões estratégicas.

Carro por assinatura?

Alguém imaginou, até um passado recente, que o consumidor pudesse colocar na balança a posse ou o uso de um automóvel? Pois muitos fazem as contas e, preto no branco, se decidem pelo carro por assinatura. O pagamento mensal elimina investir no produto e perder em sua desvalorização.

E numa fábula de despesas com impostos, taxas, seguros e manutenção. Além de contar com o rendimento mensal do capital poupado. E estar sempre ao volante de um carro zero km.

No mercado mundial, assim como japoneses e coreanos conquistaram espaço em algumas dezenas de anos, os chineses repetiram o processo numa velocidade muito maior e vão fincando bandeira em importantes mercados, inclusive no nosso:  fábricas chinesas desembarcam por aqui principalmente com veículos eletrificados, onde são pioneiros mundiais. (Elon Musk à parte…).

Guerra de preço

lateral do Caoa Chery iCar branco
Caoa Chery iCar é o carro elétrico mais barato do Brasil (Foto: Caoa Chery | Divulgação)

Mister Farley previu estar próxima uma guerra de preços entre os veículos elétricos e que sua empresa iria a curto prazo oferecê-los a partir de US$ 25 mil. Ela veio muito mais rápida: dias depois, a GM anunciou a venda de um novo Bolt, o mais barato elétrico do mercado, por US$ 26 mil, um desconto de US$ 6 mil em relação ao modelo anterior. Também no Brasil estão surgindo elétricos mais acessíveis: dois já anunciados são o Renault Kwid E-Tech e Caoa Chery iCar na faixa de R$ 140 mil.

Até a comunicação do setor passa por uma convulsão com a mídia digital e redes sociais alterando rapidamente o processo de informar o mercado. A mídia impressa (jornais e revistas) está em plena decadência e cedeu espaço para a eletrônica. Jornalistas especializados tiveram de aderir ao digital para se manterem na ativa.

E ainda disputam espaço hoje com os “influencers”, pessoal sem nenhuma formação técnica ou preocupação com a credibilidade, mas que atingem milhões de seguidores em seus twitters e tik-toks da vida.  Responsáveis pelas verbas publicitárias das fábricas acompanham surpresos esta rápida modificação da mídia, mas ainda sem uma definição objetiva de onde nem como aplicá-las.

Mas um terremoto sempre vem acompanhado de outros: dá para imaginar a intensidade do golpe que será provocado com a chegada do carro autônomo? Ele irá muito além de quebrar as auto-escolas: os abalos mencionados por Mr. Farley serão rebaixados (na Escala Richter) para leves tremores….

Melhor as empresas do setor revisarem e reforçarem a resistência de seus alicerces para evitar que a casa venha abaixo…

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9 Comentários
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Polvo 22 de junho de 2022

O setor está abalado devido a eletrificação que torna o carro mais simples de ser produzido, ou seja, precisa de menos processos de engenharia (para produção de motores, câmbios, etc), porém esbarra na questão das baterias. O custo de produzir as baterias ainda é extremamente elevado o que torna o carro inacessível para boa parte da população e, aquele modelo de produção tradicional em larga escala fica comprometido. As montadoras ficam numa sinuca de bico, pois vão continuar produzindo, porém em escala muito menor e não terão volume de vendas que justifique lojas físicas e sim o modelo de locação para uso “on-demand”.

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Geraldo 21 de junho de 2022

Nao sei em q país vcs vivem, no meu tem economia fraca e não é de hoje, estado incompetente e consequencia cheio de problemas, respiramos muira fumaça pelis próximos 50 anos podem ter certeza. Imagina um carro elétrico usado sendo abastecido no gato da pca pública ao lado do hotdog podrão. Caiam na real.

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Santiago 21 de junho de 2022

Tem razão.
E as nossas contas de luz disparariam (mais ainda), a fim de cobrir os prejuizos dos inúmeros “gatos” abastecendo carros elétricos na surdina.

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Diego 21 de junho de 2022

Se deixássemos de fazer alguma coisa por causa de ladrão, não faríamos nada.

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Denilson Alberti 20 de junho de 2022

A Ford vai se arrepender de ter abandonado um mercado como o Brasil.

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Diego 21 de junho de 2022

A Ford não abandonou mercado nenhum. O parque fabril não está mais aqui, mas o centro de desenvolvimento para a América do Sul continua. O que ocorre é que ninguém paga pra trabalhar. Os produtos dela fabricados aqui, e alguns da Argentina, davam prejuízo a cada unidade fabricada. Mudaram o modelo de negócios, trouxeram carros muito melhores, e estão ganhando dinheiro. Meu poder aquisitivo, atualmente, não permite comprar carros dela, mas não deixaria de considerar em compra-los, caso possível no futuro. Mercedes Benz foi embora, alguém tá jogando pedra nela? Audi já ameaçou várias vezes e, acredito, um dia irá. A BMW só continua por causa de fortíssimos subsídios fiscais. Se não tivesse, bye, bye. Ou melhor, Wiedersehen! E muitas outras na mesma situação. O que temos que cobrar é um ambiente de negócios melhor para o país, não que a indústria permaneça custe o que custar.

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Ivan 19 de junho de 2022

Se tratando de Brasil, acredito que o modelo de negócio com intermediação de concessionária ainda deverá existir por pelo menos mais 10 anos; carro por assinatura não deverá se tornar o padrão de consumo, pq em geral é vantajoso somente para consumidores com perfil muito específico; eletrificação talvez seja a grande mudança da década, mas a velocidade de sua expansão vai depender mais do desempenho econômico do país do que propriamente da vontade da indústria.

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Roberto Henry Ebelt 19 de junho de 2022

O que as montadoras/alugadoras de carros por assinatura farão com os veículos depois do primeiro aluguel/assinatura? Sabe-se que, ao sair da concessionária, os veículos desvalorizam em cerca de 20%. E depois de uma assinatura de dois anos? 50%? Um carro com 2 anos de uso/50.000km parece ser uma ótima opção pela metade do preço original. Será????

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Luiz Carlos Santos 19 de junho de 2022

Então Boris, (permita me a intimidade). Não para por aí, este terremoto não esta levando em consideração a diminuição expressiva de componentes e, por consequência, da indústria de fornecedores. Quantos componentes a “mecânica” de auto hoje requer? Entre motor e câmbios, e sistemas de tração, milhares!
Logo, a indústria automotiva ficará reduzida a computação (TI) eletroeletrônica e transformação e conformação plástica, (incluindo metais).
Talvez, pelo avançado da idade, não veja, mas já posso imaginar um veículo chegando remotamente na porta do consumidor, após este montar seu veículo pelo site de internet no celular.
Isso sem contar com hubs de padronização espalhados por tudo canto, se não em casa, com as impressoras 3D.
O que se transforma não e só a indústria, mas a sociedade, universidades ei consumo! Evoluímos!

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